INSS: empresas ligadas a ONGs investigadas têm mesmo contato no CNPJ

Breno Esaki/Metrópoles
Imagem colorida da fachada do INSS - Metrópoles

Ao menos cinco empreendimentos vinculados à Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) apontaram no registro do CNPJ um número de telefone e e-mail utilizados por empresas pertencentes à sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB). Ambas organizações são investigadas no caso que ficou conhecido como a farra do INSS.

Entre os CNPJs que cadastraram os mesmos contatos está o da Federação dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais do Centro Sul e Sudeste (Fafer), um dos braços da Conafer.

A Fafer e a AAB, inclusive, tiveram um outro vinculo revelado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo um relatório encaminhado à CPMI do INSS, as entidades depositaram e receberam valores de uma mesma empresa, localizada no DF e pertencente a diretora financeira da Conafer.

O Metrópoles apurou que o empreendimento movimentou, em apenas dois meses, quase R$ 4 milhões pertencentes as duas entidades. Logo em seguida, foi encerrado.

Uma terceira instituição que apontou junto a Receita Federal o mesmo telefone e e-mail utilizados pela Fafer e por empresas vinculadas a AAB foi o Terra Bank – banco digital vinculado a Conafer.

Antes de a CPMI do INSS ser instalada, a Terra Bank tinha como sócio-administrador Cícero Marcelino, assessor de Carlos Lopes, presidente da Conafer. Tempos após as investigações iniciarem, Silas da Costa Vaz – apontado como um dos secretários da Confederação, “assumiu” o comando do banco.

Como revelado pela coluna Tácio Lohan, do Metrópoles, por quatro anos Vaz recebeu beneficiário do auxílio emergencial. Em junho de 2025, porém, virou “dono” de aviões avaliados em mais de R$ 3 milhões.

Silas Vaz se tornou “proprietário” de ao menos dois aviões. Ambos supostamente foram compradas por ele diretamente do presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT), Vinícius Ramos da Cruz. O ITT é uma ONG ligada à Conafer, que recebe dinheiro de emendas parlamentares.

“Empresas laranja”

Outras empresas que apresentaram junto a Receita Federal o mesmo número de telefone e o mesmo email no CNPJ são: a Solution, Impacto, R E D Segurança e a Expresso. Todas pertencem à Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da Associação dos Aposentados do Brasil.

As empresas, inclusive, funcionam em um mesmo endereço, localizado no Recanto das Emas. Além delas, outros quatro CNPJs pertencentes a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer, também funcionam no mesmo local: a Cifrão Sistemas, uma segunda empresa denominada Solution, outra apelidada também como Impacto, e a Embalatudo.

Diversos CNPJs também vinculados à dupla, bem como a Cícero Marcelino, supostamente funcionam na parte superior de um sobrado na região administrativa.

Apesar de os envolvidos terem indicado na Receita Federal o endereço como sede das empresas – que prometem oferecer desde comércio varejista à locação de carros e atividades de apoio à agricultura, – a fachada do pequeno escritório exibe apenas chamada para dois desses empreendimentos: a Expresso e uma das companhias apelidadas como Solution.

Além de pertencerem a integrantes de instituições diferentes e dividirem um único espaço, essas empresas carregam um outra curiosidade: todas têm como contato principal o mesmo telefone e endereço de e-mail.

Durante a CPMI do INSS, as empresas de Cícero foram apontadas como empreendimentos laranja.

“A única coisa que estou vendo aqui nesta CPMI é que as pessoas que os sindicatos ajudam são os próprios dirigentes e seus familiares, as empresas dos dirigentes, dos familiares, ou dos laranjas e familiares dos laranjas. E você é um laranja, suas empresas são empresas laranja”, disse a deputada Adriana Ventura (Novo-SP).

Sede no mesmo endereço

A Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer) e a Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) têm como sede o mesmo prédio empresarial, localizado no Setor Comercial Sul de Brasília, no Distrito Federal.

As informações, que divergem apenas no número da sala, constam no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica das instituições e foram concedidas à União no momento da criação das empresas. Os CNPJs, inclusive, permanecem ativos, com os mesmos dados, perante a Receita Federal.

Tanto a Conafer quanto a AAB aparecem na lista de Processos Administrativos de Responsabilização (PAR) instaurados pela Controladoria-Geral em setembro de 2025.

A Conafer, por exemplo, teria desviado ao menos R$ 640 milhões de aposentadorias associadas à instituição. Em 17 de novembro, a Polícia Federal cumpriu mandado de prisão contra dirigentes da associação. O presidente, Carlos Roberto Ferreira Lopes, não foi localizado. Ele é apontado como chefe do esquema que contava com núcleos político, financeiro e de comando para cometer as fraudes.

A Associação dos Aposentados do Brasil, por sua vez, também seria responsável por desvios milionários. A AAB, segundo as investigações, teria solicitado descontos em benefícios de pessoas mortas há décadas. Um levantamento feito pela CGU identificou que a instituição solicitou indevidamente, em mais de 27 mil casos, a inclusão de descontos associativos de pessoas já falecidas.

Devido aos fatos, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que apura as fraudes, aprovou requerimento para convocar Dogival José dos Santos, presidente da AAB, para prestar depoimento no Senado Federal. Em 6 de novembro, parlamentares pediram quebra de sigilo bancário e fiscal do dirigente da instituição.

Operação

A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram, em 13 de novembro, nova fase da Operação Sem Desconto, investigação que mira esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. A ação mobilizou equipes em 17 estados e no Distrito Federal.

Ao todo, foram cumpridos 63 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão preventiva e diversas medidas cautelares. Entre os presos estão.

Os alvos estão espalhados por Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Tocantins e Distrito Federal.

Como o esquema funcionava

Segundo as investigações, os suspeitos atuavam inserindo dados falsos em sistemas oficiais para incluir beneficiários em associações ou entidades fictícias. A partir disso, eram feitos descontos mensais indevidos diretamente nos pagamentos de aposentados e pensionistas, muitos deles sem qualquer conhecimento sobre as cobranças.

Os alvos são investigados por formar organização criminosa voltada à obtenção de vantagens financeiras por meio de estelionato previdenciário, além de corrupção ativa e passiva para facilitar o acesso fraudulento aos sistemas do INSS.

Também há apurações sobre ocultação de patrimônio, supostamente utilizado para dificultar o rastreamento dos valores desviados.

O outro lado

Metrópoles tentou contatar os citados nessa reportagem tanto por e-mail quanto por telefone, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para futuras manifestações

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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