Intoxicação em piscina de academia: faxina em casa também tem riscos

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Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, morreu no sábado após uma aula de natação na academia C4 Gym. Polícia investiga envenenamento do ar - Metrópoles

A mistura letal feita com cloro pelo manobrista de uma academia da zona leste de São Paulo, que causou a morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, no último sábado (7/2), além de outros seis atendimentos médicos, é mais arriscada e frequente do que se imagina. Até mesmo faxinas caseiras, com a junção de diferentes produtos, podem apresentar severos riscos à saúde.

“Um erro de concentração ou uma mistura acidental é apenas uma questão de tempo em locais onde protocolos de segurança não são seguidos”, alertou a médica especialista em medicina legal e perícia médica, Caroline Daitx.

A especialista lembrou o caso de um homem, de 31 anos, que morreu em julho do ano passado, no interior de Minas Gerais, após misturar água sanitária com outro produto para limpar o banheiro. Ao respirar a mistura, em ambiente fechado, ele foi vítima de intoxicação.

Ela destacou ainda o caso de Samuel Rodrigues Squarisi, de 38 anos, que, assim como Juliana, morreu após sofrer intoxicação por cloro em uma aula de natação. O episódio aconteceu em uma academia de Campinas, no interior de São Paulo, em 2018.

Daitx destaca que ocorrências do tipo são frequentes e bastante perigosas. Veja:

Comprar produtos em canais informais aumenta os riscos

Em ambientes corporativos, os casos de intoxicação também estão cada vez mais frequentes. Um levantamento feita pela Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (Ablipa), em parceria com a a Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional (Abralimp), apontou que os relatos de intoxicação em limpeza de empresas passaram de 35%, em 2024, para 60%, em 2025. O aumento, segundo a pesquisa, ocorreu entre companhias que compram as substância também em canais informais.

O Mapeamento da Informalidade Produtos de Limpeza, que entrevistou 700 pessoas em todo o país, também verificou o número de ocorrências entre as empresas que compram exclusivamente em canais formais. Nesse caso, o percentual  de intoxicações foi bem menor: passou de 24% para 29%, entre 2024 e o último ano.

“O dado revela uma preocupante associação entre informalidade, prática de misturas e ocorrência de sintomas de intoxicação. E isso, claramente, é um problema grave de saúde pública. Esse percentual alarmante pode ser ainda maior, considerando a subnotificação de casos no país”, afirmou Juliana Marra, presidente da Abipla.

Ela destacou ainda que os produtos de limpeza formais, sejam de uso doméstico ou de uso profissional, devem ser utilizados apenas na forma como o seu rótulo determina, respeitando a diluição, se for o caso, a necessidade de se manter o ambiente ventilado e os equipamentos de proteção individual. “Qualquer mistura de produto de limpeza fora do que consta no rótulo é potencialmente perigosa”, ressaltou.

Sintomas de alerta

Segundo Daitx, os sintomas de alerta aparecem em minutos e representam uma emergência – portanto, não devem ser ignorados. Os sinais incluem ardor nos olhos, queimação na garganta, tosse persistente, dificuldade para respirar e tontura.

“Qualquer um desses sintomas é emergência. Ligue 192 ou 193 imediatamente. Não espere para ver se passa”, alertou Daitx.

Conforme a especialista, o edema pulmonar (acúmulo de líquido nos pulmões) resultante da intoxicação pode se desenvolver em até 48 horas após a exposição aos produtos químicos. “Então mesmo que a pessoa se sinta bem no início, pode piorar drasticamente horas depois”, explicou.

Sem atendimento rápido, a pessoa pode sofrer edema pulmonar progressivo, broncoespasmo severo (bloqueio das vias aéreas), insuficiência respiratória aguda, parada cardíaca e morte.

“Em exposições severas a cloro, sem tratamento médico, a taxa de mortalidade é muito alta. O oxigênio suplementar e medicações são críticos para salvar vidas”, acrescentou a especialista.

Intoxicação pode causar sequelas

Ainda conforme Daitx, as intoxicações respiratórias por produtos químicos podem causar sequelas graves e duradouras.

É o caso da Síndrome de Disfunção Reativa das Vias Aéreas (RADS), uma forma de asma permanente, e da redução definitiva da função pulmonar, além da hiper-reatividade brônquica crônica (sensibilidade exagerada a irritantes).

Em casos extremos, o paciente também pode sofrer fibrose pulmonar, que é a cicatrização do tecido. “Essas sequelas podem durar meses, anos ou ser permanentes, afetando significativamente a qualidade de vida”, disse Daitx.


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Vídeo mostra desespero de alunos

Câmeras de segurança flagraram o momento em que alunos e instrutores passam mal durante a aula de natação na piscina da academia. Nas gravações (veja abaixo), é possível ver as vítimas sendo retiradas da água com dificuldades de movimento e respiração.

Outra câmera filmou Juliana sendo levada para a recepção da academia, após ser retirada da piscina. Ela senta no chão, coloca a mão no peito, faz sinal como se estivesse tonta e parece tossir.

As câmeras também mostram o momento em que o manobrista da academia fez a mistura de cloro que “envenenou o ar” do local. Outra filmagem flagrou o funcionário deixando o balde ao lado da piscina.

Adolescente está com pulmão “cheio de bolinhas”

De acordo com o boletim de ocorrência que registrou o caso, o pai do adolescente informou à polícia que o pulmão do menino está “cheio de bolinhas”, como mostrou uma tomografia realizada no Hospital Vila Alpina, na zona leste da capital.

Segundo a médica, essas “bolinhas” são opacidades e nódulos centrolobulares que representam inflamação e dano real ao tecido pulmonar.

“O cloro queima o pulmão por dentro, deixando essas marcas visíveis na tomografia. Quanto mais ‘bolinhas’ e mais extensas, mais grave foi a exposição”, explicou Daitx.

Conforme a especialista, algumas dessas opacidades podem desaparecer com tratamento, mas outras podem deixar cicatrizes permanentes. Assim como outros exames, elas servem como prova objetiva de que houve lesão pulmonar significativa.

Exames que podem instruir a investigação

Segundo a profissional especialista em perícia médica, há exames essenciais que podem contribuir para a investigação do caso.

É o caso de tomografia de tórax (prova do dano pulmonar), análise da água da piscina (prova de desequilíbrio químico), análise dos produtos químicos usados, laudos médicos de emergência e especialistas, e testes de função pulmonar.

Deve ser feita ainda uma perícia técnica do local, focada em analisar a ventilação, armazenamento de produtos e treinamento do pessoal. Também é preciso analisar registros administrativos da academia e depoimentos de vítimas e testemunhas.

“Tudo junto prova negligência, imprudência ou imperícia, permitindo responsabilização criminal por lesão corporal culposa ou homicídio culposo”, informou a médica.

Polícia investiga homicídio

O caso foi registrado como morte suspeita e perigo para a vida ou saúde de outrem no 6º Distrito Policial de Santo André, na região metropolitana. A investigação é feita pelo 42º Distrito Policial (Parque São Lucas), na capital paulista.

A reportagem apurou que os policiais trabalham com a hipótese de homicídio. Somente ao final do inquérito, a autoridade policial deve definir se o caso se trata de homicídio doloso (quando há intenção) ou culposo (sem intenção de matar).

A mistura com cloro que causou intoxicação nos alunos de natação da C4 Gym foi feita pelo manobrista do estabelecimento. Ele prestou depoimento à polícia, nesta terça-feira (10/2).

Segundo a Polícia Civil, tanto o manobrista quanto os donos da academia são investigados. Os sócios, que deixaram o local após o incidente, ainda não foram ouvidos.

Embora a academia seja antiga no bairro, a administração atual está no comando há cerca de dois anos e não possuía os alvarás de funcionamento da piscina.

Em nota, a direção da Academia C4 Gym destacou que “lamenta profundamente o ocorrido em sua unidade” e que “está colaborando integralmente com as autoridades competentes”.

Também em nota, a defesa do manobrista prestou condolências à família de Juliana e afirmou que “até a conclusão das investigações, é prematuro que se faça qualquer juízo de valor acerca das circunstâncias e responsabilidades eventualmente envolvidas”.

“Neste momento, por respeito ao devido processo legal e ao sigilo que envolve o procedimento, a defesa não se manifestará sobre o mérito dos fatos”, disse a advogada Bárbara Bonvicini.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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