João Carlos Martins se emociona com carta de Fernanda Montenegro. Vídeo

Victor Santos/ Metrópoles
Prestes a lançar orquestra para músicos com mais de 60 anos, maestro João Carlos Martins revelou inspiração em carta de Fernanda Montenegro - Metrópoles

Com data marcada para inaugurar a primeira orquestra sênior do Brasil, o maestro João Carlos Martins revelou que parte de sua inspiração para o projeto veio de uma carta escrita de próprio punho por Fernanda Montenegro.

Ao ser convidado pelo Metrópoles a refletir sobre o que significava, para ele, reger músicos com mais de 60 anos, ele revelou que carrega dois grandes exemplos para se manter na ativa e para proporcionar essa oportunidade a outras pessoas: seu pai, que morreu aos 102 anos, e a carta que recebeu da atriz.

Na carta, Fernanda lamentava não poder ir a um concerto realizado pelo maestro em homenagem a Arthur Moreira Lima, ocorrido em 2025 no Rio de Janeiro. Ela explicou que não poderia ir à apresentação porque, aos 96 anos, estava gravando uma nova série.

Em suas palavras, ela brincou “estar caminhando para os 100 anos e ainda estar em trabalho de parto”. O pianista admitiu que a carta – que foi enquadrada e colocada em um lugar especial na casa dele – é o maior exemplo que carrega, por mostrar “uma mulher que, com 96 anos, está pensando no trabalho que vai ter aos 97 anos”.

“Sua figura, maestro, é imensa. Imensa como artista e como ser humano. Saiba que desde que o encontrei na sua arte, eu o aplaudo, aplaudo a sua dimensão”, escreveu a atriz.

“Eu sempre lutei para ser um dos principais intérpretes de Bach no mundo, isso é uma razão de objetivo. Depois virei maestro. E aí você tem que procurar inovar, você tem que procurar ter objetivos e é essa carta da Fernanda, não é uma carta. Eu considero um documento histórico. Então, a razão é essa: entre manter objetivos ou ficar velho, então o que eu prefiro, é manter objetivos”, falou João Carlos Martins.

Pianista inaugura orquestra sênior em SP

O renomado maestro e pianista vai inaugurar, em São Paulo, a primeira orquestra sênior do Brasil, composta apenas de músicos com idade acima de 60 anos. Ao Metrópoles, ele revelou que a ideia de juntar os músicos 60+ para tocar se deu para que a palavra “renovação” – esperada nas orquestras atuais – traga esperança para aqueles que poderiam ser substituídos por instrumentistas mais jovens.

A Orquestra Bachiana Sênior SESI-SP conta com 25 músicos que, segundo o próprio maestro – que realiza a direção artística do projeto –, têm entre 62 e 80 anos e, em sua maioria, acabam de se aposentar da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), da Orquestra Sinfônica Municipal, do Theatro Municipal, ou da Orquestra Sinfônica Universidade de São Paulo (Osusp). A maioria deles, ao receber o convite para voltar a tocar, estavam com lágrimas nos olhos.

“O instrumento, para um músico, mesmo quando ele se aposenta, é um ímã”, comparou.

João Carlos foi diagnosticado aos 18 anos com contratura de Dupuytren e distonia focal, doenças raras e, até hoje, sem cura. Ele sofre com dor ou desconforto nas mãos desde os 22 anos.

“Eu nunca desisti dos meus objetivos e meus objetivos hoje estão ligados àqueles que estão perto do apagar das luzes e àqueles que estão tendo a oportunidade de conhecer o que significa a palavra música, porque o maior compositor espanhol dizia que a música começa onde a linguagem termina”.

João Carlos brincou que, se os músicos são “sênior”, ele é “ultrassênior”. “Depois de mim, o mais novo tem 80 anos. Eu vou fazer 86, mas eu reduzi drasticamente minhas atividades: agora só são 120 concertos por ano”, conta.

Com o projeto, o maestro quer que novas orquestras sênior sejam criadas pelo Brasil afora. “Tudo na vida necessita um pontapé inicial. Então se você pergunta do que a vida é feita, a vida é feita de tradição e inovação. Tradição, você mantém a tradição mantendo o interesse, que é a minha luta, é a democratização da música clássica […] E inovação é você criar fatos novos para causar interesse para pessoas que não tiveram contato com a música clássica”, pontuou.

A ideia de criar a Bachiana Sênior se deu porque João Carlos já estava regendo a Bachiana Filarmônica e a Bachiana Jovem. Com isso, a orquestra se tornou a única instituição no mundo que tem as três modalidades.

Para João Carlos, reger músicos 60+ vem do exemplo que ele trouxe de seu pai, que morreu aos 102 anos totalmente lúcido. “Na festa dos 100 anos do meu pai, o embaixador da Romênia chegou para ele e falou: ‘Seu Martins, o senhor está fumando charuto e tomando vinho. O senhor já perguntou para os seus médicos?’ Meu pai respondeu: ‘Meus médicos já morreram há muito tempo’”, riu ao contar a história ao Metrópoles.

O processo seletivo dos músicos foi feito com a ajuda do maestro Laércio Sinhorelli Diniz, regente principal das apresentações que terá a temporada aberta no dia 15 de abril, com shows no SESI-SP.

Os concertos da temporada vão começar mais cedo e ter menos tempo de duração. As apresentações devem ter início às 20h e ter cerca de 50 minutos de duração.

O repertório da Orquestra Sênior será o tradicional da Bachiana, porém, ao mesmo tempo, vai abordar temas que não fazem parte do cotidiano de outras orquestras. Um dos concertos, por exemplo, vai ser a relação entre música e psicanálise e outro vai trazer a relação da música com o meio ambiente.

“A Bachiana Sênior vai ter uma missão social muito importante para que pessoas que estão entrando na base do envelhecimento tenham mais experiência para discutir temas importantes da sociedade e do nosso cotidiano”, acrescentou.

Em 15 de março, o maestro realizou uma apresentação especial com a Orquestra Sênior. Segundo ele, a recepção do público “foi um escândalo. Parecia carnaval”. Ele ressaltou que, não só no Brasil, mas fora também, nunca teve um lugar vazio em seus concertos e tem expectativa que a situação se repita com as apresentações do novo projeto.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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