
A mal sucedida recuperação judicial bilionária do Grupo Pupin, do Rei do Algodão, ganhou um novo capítulo. Decisão da 1ª Vara Cível de Campo Verde, em Mato Grosso, reconheceu fraudes no processo que levou o grupo à falência após 10 anos de recuperação judicial.
No centro dos crimes apontados está, justamente, a administradora da recuperação judicial, empresa contratada para auxiliar o Grupo Pupin a pagar credores e sair do atoleiro, a Fource.
O juiz André Barbosa Guanaes Simões apontou que a Fource se posicionou dos dois lados do balcão. Ciente das dívidas do Grupo Pupin, comprou títulos dos credores com deságio. Ou seja, “assumiu” o papel de credor pagando menos do que a dívida valia. Ao mesmo tempo, era a Fource quem conduzia o processo de decisão de quem seria pago e quando.
“A atuação das cessionárias na administração do grupo Pupin já durante a elaboração do aditivo ao plano de recuperação judicial lhes conferiu posição consideravelmente mais confortável do que aquela dos demais credores, que só indiretamente, pelo voto, poderiam tentar alguma modificação da proposta a ser deliberada em assembleia”, escreveu o magistrado.
O juiz, além disso, encaminhou os documentos e pediu que a polícia investigasse o eventual cometimento de crimes.
“Encaminhe-se à autoridade policial cópia dos autos (…) a fim de que se apure eventual prática dos crimes de sonegação de informações (art. 171 da LRF) e de favorecimento a credores (art. 172).”
A decisão também anulou a última assembleia geral de credores, que, em dezembro de 2025, aprovou a falência do Grupo Pupin.
A denúncia que deu origem ao processo foi feita pelo próprio Rei do Algodão, o empresário José Pupin. Nos autos, ele acusa a Fource de “se infiltrar” no processo de recuperação judicial e, assim, assumir o controle patrimonial da empresa, desviando recursos milionários sob o pretexto de promover a reestruturação financeira.
Como mostrou a coluna, as suspeitas de fraude são um dos fantasmas que assombram o colapso do grupo que já foi um dos maiores produtores de algodão do país. Mas, mais do que isso, a recuperação judicial do Grupo Pupin é citada na maior operação da Polícia Federal (PF) sobre venda de sentenças judiciais, que alcança magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MJ) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A Operação Sisamnes começou com o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá (MT), no dia 5 de dezembro de 2023. No celular de Zampieri, os investigadores encontraram conversas e documentos que indicariam negociações para a compra de decisões judiciais. Em um dos diálogos interceptados, o advogado afirmou ao empresário Haroldo Filho, da Fource, que teria acertado com um desembargador um resultado que beneficiava o Grupo Pupin.
Diante da suspeita de envolvimento de pessoas com foro privilegiado, a Operação Sisamnes passou a ser supervisionada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O Grupo Pupin foi, por décadas, exemplo da força do agronegócio brasileiro. José Pupin não foi apelidado de Rei do Algodão à toa. O empresário chegou a plantar, na mesma safra, 110 mil hectares de algodão em Mato Grosso — a área é equivalente a da cidade do Rio de Janeiro.
O império, no entanto, caiu junto com o preço do algodão no mercado internacional. Em 2014 veio o primeiro sinal de que os negócios não iam tão bem. , no interior de Mato Grosso. O imóvel era a garantia de um empréstimo de US$ 100 milhões, que não foi quitado.
Credores e patrimônio
Em 2019, o grupo deixou de realizar atividades operacionais — como plantar algodão. Desde então, entra no caixa apenas dinheiro do arrendamento de parte das fazendas enquanto as dívidas se avolumavam. A soma de todos os bens, o ativo, do grupo é estimado, hoje, em R$ 2,89 bilhões. Já as dívidas podem superar os R$ 5 bilhões.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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