"Leucemia não é uma sentença de morte”, diz jovem após 10 anos curada

Arquivo pessoal
Foto colorida de jovem com beca de formatura - Metrópoles

Em 2014, aos 16 anos, no auge da adolescência, Iasmin Mello Pereira levava uma rotina intensa. Treinava diariamente na academia, dividindo o tempo entre musculação e exercícios aeróbicos, e se preparava para concluir o último ano da escola. Nada indicava que uma consulta ginecológica de rotina desencadearia o diagnóstico de leucemia.

Os exames foram solicitados sem qualquer suspeita específica. Enquanto aguardava os resultados, porém, começaram os sintomas: torcicolo intenso, dores fortes na lombar, cansaço extremo e falta de ar ao caminhar.

Atividades simples passaram a exigir esforço desproporcional. Na academia, não conseguiu levantar nem cinco quilos, peso muito inferior ao que costumava treinar. Sem imaginar a gravidade, procurou um traumatologista.

No mesmo período, a ginecologista recebeu exames alterados e pediu retorno imediato ao consultório. No dia seguinte, após avaliação com hematologista, veio o diagnóstico de leucemia. “Eu era muito nova e não tinha muita noção do que estava acontecendo. Sabia que faria o tratamento e que ficaria bem”, relembra.

O que é leucemia?

Leucemia é um tipo de câncer que afeta o sangue e a medula óssea, tecido localizado dentro dos ossos responsável pela produção das células sanguíneas. A doença ocorre quando glóbulos brancos (leucócitos) passam a se multiplicar de forma descontrolada.

Essas células anormais não funcionam corretamente e atrapalham a produção de células saudáveis, como hemácias (que transportam oxigênio) e plaquetas (responsáveis pela coagulação). A doença pode evoluir de forma rápida (aguda) ou lenta (crônica).

Os principais tipos de leucemia são classificados a partir da velocidade de progressão e do tipo de célula afetada. As leucemias agudas evoluem rapidamente e exigem tratamento imediato.

Já as leucemias do tipo crônico têm progressão mais lenta e podem permanecer assintomáticas por anos.


 Sintomas mais comuns de leucemia


Interrupção da escola e complicação grave

A quimioterapia começou na mesma semana que o diagnóstico foi feito. O tratamento interrompeu o último ano da escola e toda a rotina da adolescência de Iasmin. A indicação de transplante de medula óssea surgiu ao final do primeiro ano de tratamento, mas uma complicação tornou o procedimento indispensável: a jovem sofreu um AVC seguido de trombose cerebral após reação grave à medicação.

O doador compatível estava dentro da própria família. O irmão de Iasmin, Alexandre, foi identificado como 100% compatível. Antes do transplante, ela precisou passar por radioterapia na cabeça e no corpo inteiro.

“Eu achava que a radioterapia era mais utilizada em cânceres localizados. Como no meu caso era no corpo todo, precisei fazer a radioterapia completa”, conta.

Foto colorida de jovem em tratamento para a leucemia ao lado do irmão -Metrópoles.
Iasmim ao lado do irmão, Alexandre, doador 100% compatível, no dia do transplante, em 2014

A radio-oncologista Denise Ferreira, diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), explica que a associação da radioterapia apenas a tumores sólidos é um equívoco. “Embora a leucemia seja um câncer do sangue que pode afetar todo o organismo, as células leucêmicas são altamente radiossensíveis”, afirma.

Segundo a especialista, a Irradiação Corporal Total (TBI) pode integrar o regime de condicionamento antes do transplante de medula óssea. O objetivo é eliminar células leucêmicas residuais, destruir a medula doente e promover imunossupressão suficiente para permitir o enxerto da nova medula.

“Com as melhorias dos transplantes, medicamentos direcionados, imunoterapia e terapias celulares, o prognóstico tem melhorado muito. Em crianças, alguns tipos de leucemia apresentam taxa de cura acima de 80%”, acrescenta Denise. Nem todos os transplantes exigem TBI, mas, em alguns casos, a estratégia ajuda a reduzir o risco de recaída.

Aos 28 anos, formada em Administração e atuando na área financeira de uma startup de reciclagem, Iasmin completa 10 anos do segundo transplante, previsto no protocolo — marco que consolida sua cura.

As principais consequências vieram do AVC, que levou ao desenvolvimento de epilepsia secundária e exige medicação contínua. Ainda assim, ela resume sua trajetória com uma mensagem clara: “A leucemia tem cura. Não é uma sentença de morte.”

Ela também defende a importância do cadastro no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME), destacando que preencher um formulário pode oferecer a outra pessoa a chance de recomeçar.

Dez anos após o diagnóstico, pequenas experiências ganharam novo significado. Sentir o vento no rosto, dormir uma noite inteira sem interrupções hospitalares e caminhar com liberdade passaram a representar conquistas silenciosas — e definitivas.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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