Lula e António José Seguro: dois caminhos (por Hubert Alquéres)

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Socialist candidate Jose Antonio Seguro addresses supporters

A vitória do socialista moderado António José Seguro na eleição para presidente de Portugal tem um significado que vai além de suas fronteiras por indicar o caminho da conciliação como o mais adequado para enfrentar o populismo e a polarização.

O resultado permite ainda cotejar as diferenças de estratégia e de perfil entre dois líderes de esquerda. Enquanto Lula aposta na radicalização como meio de derrotar o bolsonarismo, Seguro logrou êxito pregando a união.

No caso de Portugal, o caminho seguido não foi apenas uma estratégia eleitoral para sair da quarta posição, com apenas 10% das intenções de voto, Seguro sempre esteve convicto de que a pacificação é o caminho para que seu país reencontre a estabilidade política inaugurada em 1986, com a eleição de Mário Soares, e interrompida no início da década atual.

Eleito com a maior votação da história para a Presidência portuguesa, quase 67% dos votos, Seguro enviou, em seu discurso de vitória, um recado claro ao adversário ultradireitista André Ventura, do partido Chega: “Os vencedores desta noite são os portugueses e a democracia. Como democrata, todos os que concorreram comigo merecem o meu respeito. Como futuro presidente, acrescento que, a partir desta noite, deixamos de ser adversários e temos o dever partilhado de trabalhar por um Portugal mais desenvolvido e mais justo.”

A grande chave da vitória de Seguro foi evitar a armadilha de reduzir a eleição portuguesa a um embate entre esquerda e direita, deslocando-a para uma disputa entre moderados e extremistas. Mesmo em relação ao adversário Ventura, manteve uma postura respeitosa. Saiu vitorioso porque pregou estabilidade, e não ruptura, ao contrário do seu oponente, que pretendia varrer Portugal com um “abanão”.

O apelo à união teve também uma razão pragmática. Apesar da vitória expressiva da centro-esquerda, não se pode subestimar a votação da extrema direita, que alcançou 33% dos votos. Com esse resultado, o Chega, um dos partidos mais extremistas da Europa, consolida-se como força política capaz de obter bons resultados nas próximas eleições e de representar uma ameaça real à estabilidade política conquistada nas urnas.

Diante disso, a continuidade da aliança entre a esquerda moderada e a direita democrática surge como o melhor antídoto contra retrocessos, com essas duas forças se revezando no poder. Portugal é um país de regime semipresidencialista, no qual o presidente exerce a chefia de Estado e o primeiro-ministro a chefia de governo. A chave da estabilidade estará no bom relacionamento entre o novo presidente de centro-esquerda e o primeiro-ministro Luís Montenegro, de centro-direita.

O desfecho da eleição portuguesa suscita uma indagação inevitável: é possível que o Brasil tenha um resultado semelhante na eleição presidencial deste ano? O realismo político impõe a conclusão de que isso é praticamente impossível. Em primeiro lugar, falta-nos uma força moderadora. Além disso, nossa centro-direita não parece disposta a romper o cordão umbilical que a atou ao bolsonarismo.

Tampouco os dois principais candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro, terão interesse em superar a divisão do país. Ao contrário, ambos se beneficiam da polarização. O atual presidente é o maior interessado em confinar a disputa presidencial a um embate entre a esquerda e a ultradireita. Se o bolsonarismo guarda muitas semelhanças com o Chega português, são grandes as diferenças entre os discursos de Seguro e Lula.

Dois dias antes da vitória do socialista português, Lula declarou, diante de uma plateia petista em Salvador: “Sem essa de Lulinha paz e amor. Esta eleição vai ser uma guerra”. E acrescentou: “Temos de ser mais desaforados porque eles são desaforados”. Nessa “guerra dos desaforados”, a política deixa de ser o meio civilizado de dirimir conflitos para se transformar numa disputa onde os adversários são vistos como inimigos.

O PT que vai às urnas já se pinta para uma guerra ideológica e acirrada, se apresentando como antissistema. Nesse enquadramento, o Congresso Nacional passa a ser visto como “inimigo do povo”, um “Congresso branco, masculino e conservador”, como definiu o documento aprovado pela direção nacional do partido na semana passada.

Esse PT de tacape nas mãos, disposto a esmagar o “inimigo”, fala em construir uma “Frente Ampla” para derrotar o “fascismo”, mas aprova resoluções que soam radicais e estreitam a possibilidade de alianças: “A política monetária conduzida pelo Banco Central, cuja autonomia foi instituída durante o governo Bolsonaro, tem operado como instrumento de bloqueio ao projeto eleito nas urnas, aprofundando a financeirização da economia, drenando recursos públicos e restringindo o investimento produtivo.” Portanto o Banco Central deveria ser tratado como um apêndice do governo.

Ainda na condução econômica, não há nas declarações de Lula uma única vírgula de preocupação com a escalada da dívida pública, o principal fator que impede uma queda robusta da taxa de juros. Essa dívida caminha para cerca de 82% do PIB ao final de 2026 e a bomba-relógio da crise fiscal deve explodir em 2027.

Quando se coteja o desfecho eleitoral de Portugal com o quadro político da disputa presidencial brasileira, chega-se à conclusão de que existem duas esquerdas profundamente distintas. Não apenas porque suas principais lideranças, Lula e Seguro, são muito diferentes, mas porque seus métodos também o são. Lula, ao contrário de seu colega, edificou sua trajetória apostando no confronto.

A lógica do “nós contra eles” está mais viva do que nunca e alternativa ao lulismo, o bolsonarismo, tampouco oferece uma saída virtuosa. Marchamos, assim, para uma eleição marcada pelo medo e pela rejeição. Dificilmente será nesta disputa que o Brasil se reencontrará, como os portugueses conseguiram fazê-lo com a vitória de António José Seguro.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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