
Quase três anos após o fechamento da Clínica Restituindo Vidas por mortes e torturas em Luziânia (GO), o cenário de horror parece se repetir na família proprietária. O Ministério Público de Goiás (MPGO) ajuizou uma ação civil pública para interditar a Unidade Terapêutica Novo Recomeço (El Shaddai Tratamento e Recuperação Familiar Ltda), administrada por Geralda Bezerra de Morais.
A instituição, que recebeu internos da clínica de seu filho, Tiago de Morais Araújo, quando esta foi fechada em 2023, foi agora flagrada pela vigilância sanitária em condições subumanas, com falta de higiene, estrutura precária e ausência de profissionais qualificados.
O Ministério Público de Goiás (MPGO), por meio da 6ª Promotoria de Justiça de Luziânia, ajuizou no início de 2026 uma ação civil pública com o objetivo de interditar a comunidade terapêutica que funcionava de forma irregular no município.
O MPGO aponta que a El Shaddai, localizada no Parque Desportivo Brasília (Roosevelt), operava sem licença sanitária, sem responsável técnico e mantinha residentes de forma involuntária, inclusive idosos.
O Relatório de Inspeção Sanitária nº 66/2025, elaborado pela Superintendência de Vigilância Sanitária (Suvisa), constatou presença de teias de aranha em todas as áreas, vidros quebrados, janelas sem telas, falta de recursos humanos compatíveis com as atividades desenvolvidas e falta de condições mínimas de higiene e limpeza.
A instituição foi interditada cautelarmente pela Suvisa em 6 de outubro de 2025. Todavia, a situação cadastral da empresa na Receita Federal é ativa.
Diante das constatações, o MPGO requer na ação, em caráter liminar, a interdição cautelar definitiva da unidade, com vedação de reabertura sob outro nome, CNPJ ou endereço até regularização completa.
Pede ainda a indisponibilidade de bens das instituições e das responsáveis e dos responsáveis legais no valor de R$ 500 mil a cada acionado.
O MPGO solicita ainda que Geralda seja proibida de exercer atividades relacionadas ao tratamento de pessoas com transtornos mentais e assistência social envolvendo idosos, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes.
Denúncia de maus-tratos
Após a interdição da Clínica de Reabilitação Restituindo Vidas, pacientes que estavam no local acabaram transferidos para outras comunidades terapêuticas. Alguns dos internos foram alocados no Centro Terapêutico El Shaddai, que pertence à mãe de Tiago, dono do espaço denunciado e fechado por maus-tratos e mortes.
Em 2023, o Metrópoles ouviu familiares de algumas vítimas que presenciaram agressões dentro do centro coordenado por Geralda. De acordo com eles, o cenário era semelhante ao que foi visto na clínica clandestina mantida pelo filho da mulher.
A reportagem confirmou que eram realizadas internações compulsórias no espaço, mesmo a prática não sendo permitida em centros terapêuticos. A mensalidade variava entre R$ 1.100 e R$ 1.500. Na teoria, era oferecido atendimento aos pacientes com psiquiatras, psicólogos e terapeutas.
Segundo um dos familiares, a maioria dos termos que estavam no contrato não era cumprida. “A estrutura do lugar até que é tranquila. Mas mesmo assim ainda tem outros problemas. A alimentação, por exemplo, é muito precária, e não condiz com o valor de R$ 1.300 que pagamos de mensalidade”, contou à época o parente de um dos pacientes, que pediu para não ser identificado.
Em diversas ocasiões, ainda de acordo com as denúncias, o centro terapêutico oferecia, aos pacientes, salsicha como almoço.
A rotina no local também era regada a agressões. De acordo com as denúncias, muitos pacientes eram violentados caso se comportassem mal ou reclamassem de algo em relação ao centro terapêutico.
“Nós já vimos a dona da clínica ameaçar um interno, porque ele fez algumas reclamações. Ela disse que tinha ligação com a polícia e que eles poderiam espancar e ‘sumir’ com o paciente”, relatou a pessoa que não quis ser identificada.
Clínica interditada em 2023
A Superintendência de Vigilância em Saúde de Goiás interditou, em maio de 2023, a Clínica de Reabilitação Restituindo Vidas, situada na região das Chácaras Marajoara, em Luziânia. A fiscalização ocorreu após o Metrópoles procurar os órgãos durante apuração sobre as situações de maus-tratos e tortura a que eram submetidas as vítimas no estabelecimento clandestino.
Vídeos chocantes gravados no local mostram os pacientes nus, sendo obrigados a entrar na água de madrugada, dormir no chão em meio à sujeira e ficar amarrados em posição semelhante àquela em que escravos eram punidos no Brasil há mais de 130 anos.
Veja abaixo alguns vídeos das humilhações:
Na clínica, dependentes químicos eram submetidos, diariamente, a humilhações e sessões de tortura que já resultaram até em morte.
Algumas das irregularidades encontradas no local foram falta de documentação para funcionamento da clínica, superlotação, ausência de responsável técnico, condições precárias de higiene e má alimentação dos residentes.
A rotina dentro da casa era de dor e sofrimento. A lista de supostos crimes cometidos por Tiago e seus funcionários é extensa. Ele é acusado de bater, humilhar e permitir circulação de drogas no local.
No caso mais aterrorizante, um interno morreu, em março deste ano, após ser obrigado a ingerir doses cavalares de medicamentos controlados.
Cerca de um mês depois, em 24 de abril, outro paciente apareceu morto na Clínica de Reabilitação Restituindo Vidas. Carlos Eduardo Rodrigues, 44 anos, não passou sequer 24 horas sob os cuidados de Tiago. O homem foi internado na tarde do dia 24 de abril pela mãe e, durante a noite, faleceu. O óbito dele é investigado pela PCGO, por meio Grupo de Investigação de Homicídios (GIH) de Luziânia.
A reportagem entrou em contato com Geralda, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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