
Veículos blindados, identidades falsas, arsenais e máscaras hiper-realistas. Até chegar ao topo da lista vermelha de procurados da Interpol, o narcotraficante uruguaio Sebastián Enrique Marset Cabrera (foto em destaque)usou todos os artifícios possíveis para escapar do radar das forças de segurança. Seus truques, porém, foram vencidos pelas polícias norte-americana e boliviana na última sexta-feira (13/3).
Diversas investigações indicam que Marset utilizava veículos de altíssima segurança, incluindo carros blindados de luxo. Durante operações na Bolívia — onde o traficante montou sua base — autoridades apreenderam diversos veículos de alto padrão vinculados a ele e identificaram o uso de proteção armada em sua frota.
Na sexta-feira (13), quando Marset, a meia-irmã dele, Tatiana Marset Alba, de 22 anos, dois venezuelanos e um colombiano foram presos, a polícia também apreendeu um arsenal, além de diversos veículos avaliados em mais de R$ 2 milhões. O que mais chamou atenção, porém, foi a descoberta de várias máscaras hiper-realistas no imóvel, supostamente usadas pelos criminosos para se disfarçarem ao deixar o esconderijo.
Empresário e infiltrado no futebol
O traficante construiu sua carreira criminal sobre algo simples: ser quem precisasse ser. Líder do chamado Primeiro Cartel Uruguaio, ele aprendeu a transformar identidades em escudos: documentos perfeitos, histórias de vida detalhadas, perfis em redes sociais e até sotaques e maneirismos ajustados ao cenário.
Em público, surgia como empresário próspero e apaixonado por futebol; nos bastidores, coordenava uma rede transnacional de tráfico e lavagem de dinheiro.
Uma de suas máscaras mais eficazes foi a de “empresário brasileiro” estabelecido em Santa Cruz de la Sierra. A cobertura fazia sentido: brasileiros são comuns na região, o ambiente de negócios favorecia investimentos e a documentação parecia impecável, de registros civis a históricos profissionais.
Com essa identidade, Marset montou empresas em ramos diversos e se aproximou do futebol local, adquirindo participação em um clube e até entrando em campo. A rotina de treinos, entrevistas e presença em jogos não era apenas vaidade: servia para legitimar sua fortuna, ampliar o trânsito social e estabelecer contatos.
O futebol abre portas sociais e políticas, além de normalizar movimentações financeiras vultosas. Reformas em estádios, transferências, patrocínios e viagens de equipe tornam-se justificativas plausíveis para grandes volumes de dinheiro em circulação.
Marset explorou essa janela com frieza cirúrgica, equilibrando a imagem de “benfeitor do esporte” com operações que, segundo investigações, abasteciam sua logística de drogas e lavagem de dinheiro. A camisa 10 — símbolo de liderança e criatividade dentro de campo — ajudava a consolidar a narrativa do “craque-investidor”.
Por trás das máscaras, havia método. Marset operava com um arsenal de documentos de vários países, presença digital coerente e mudanças constantes na aparência — barba, cabelo, óculos e retoques sutis.
Cada persona vinha acompanhada de biografia, contatos e rotinas verificáveis. Antes de usar uma identidade em operações maiores, ele a testava em situações menores: check-in em hotéis, abertura de contas e aparições sociais. A estratégia funcionou por anos.
A visibilidade proporcionada pelo futebol, no entanto, também criou um acervo de imagens e vídeos. Quando análises biométricas e cruzamentos de dados avançaram, a distância entre o “empresário brasileiro” e o foragido uruguaio começou a desaparecer.
A partir daí, a máscara caiu: pegadas digitais, documentos e padrões de comportamento passaram a ligar suas diferentes identidades. As mesmas ferramentas tecnológicas que sustentavam sua camuflagem acabaram contribuindo para desmascará-lo.
Ligação com o PCC
Se Marset deixou rastros por diversos países, no Brasil — vizinho ao Uruguai, sua terra natal — não foi diferente.
Por aqui, além de manter vínculos com atividades criminosas, o traficante teria se aliado a uma das maiores facções do país: o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Em novembro do ano passado, a coluna noticiou com exclusividade, logo após a operação mais letal da história contra o Comando Vermelho (CV), no Rio de Janeiro, que Marset havia se aproximado do PCC.
Um vídeo obtido pela reportagem mostra Marset reunido com lideranças da facção. Na gravação, ele faz ameaças diretas a rivais e forças policiais e afirma que poderia provocar uma guerra na fronteira do Brasil.
Segundo investigações, o vídeo teria sido gravado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde o narcotraficante mantinha sua base de operações. Nas imagens, ele aparece portando um fuzil e cercado de aliados armados, diante de bandeiras e símbolos que remetem ao PCC e à atuação do grupo também no Paraguai.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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