
Por Roberto Caminha Filho
O Bras é mesmo o país do Carnaval! Não apenas pela alegria, pela música ou pela capacidade infinita de transformar tragédia em piada. Somos o único lugar do mundo onde os três Poderes da República conseguem desfilar em perfeita harmonia — desde que o enredo seja gasto público.
Na avenida institucional, Executivo, Legislativo e Judiciário entram juntos, sorridentes, afinados, cada um com sua fantasia reluzente. Não há empurrão, não há descompasso, não há briga por espaço. Quando o assunto é orçamento, verba extra, reajuste ou penduricalho, o samba flui que é uma beleza.
O conflito, a verdadeira Batalha de Confete, fica para depois da Quarta-Feira de Cinzas.
O Abre-alas traz o Executivo puxando o enredo da “bondade social ilimitada”. É um carro alegórico enorme, cheio de promessas, programas, anúncios emocionantes e discursos que fazem chorar até o Rei Momo, o mais feliz dos nossos foliões. Mal sabe que a conta chega para ser paga, mesmo sendo com o dinheiro dos outros.
Tudo é apresentado como urgente, necessário e inadiável. O detalhe do custo fica escondido atrás da fantasia. Afinal, falar de responsabilidade fiscal em pleno Carnaval é visto como falta de espírito festivo. Quem pergunta “quanto custa?” vira o chato da turma, aquele que quer desligar o som às dez da noite.
O Tesouro vira caixa da festa. A lógica é simples: primeiro gasta, depois explica.
Logo atrás vem o Carnavalesco, aquele que entende da coisa, o Legislativo, experiente, calejado, com samba decorado e passo ensaiado. É o bloco que nunca se perde na avenida. As coreografias são rápidas quando o assunto é interesse próprio e lentas quando o tema envolve cortar gastos ou apertar cintos. Sabe fazer a pílula ficar dourada.
Emendas viram confete, verbas viram serpentina e privilégios são tratados como purpurina na tradição cultural. Questionar é quase um sacrilégio. Afinal, “sem estrutura não dá pra legislar”, dizem, enquanto a bateria acelera.
O orçamento, esse velho conhecido, deixa de ser instrumento de planejamento e vira instrumento de sobrevivência política.
Fechando o desfile, entra o Judiciário com fantasia discreta, discurso técnico e aura de equilíbrio. É a ala da Master Harmonia Institucional. Fala pouco, decide muito e raramente é chamada a explicar o custo do próprio figurino. A Master Harmonia Institucional está botando pra sambar por cima do Sistema Bancário, com aulas sendo dadas em todo o planeta Terra sobre os nossos Mega Exageros. Só o meu Brasil consegue suportar tantas barbaridades sobre o Sistema Bancário. Em outro lugar, a coisa já seria o Inferno.
Auxílios, gratificações e estruturas crescem embaladas em justificativas sofisticadas, difíceis de contestar. Quando aparece alguém falando em contenção, austeridade ou sacrifício coletivo, a ala costuma sair da avenida para “avaliar tecnicamente” — e não volta para o refrão.
O mais impressionante não é o tamanho dos carros, nem a purpurina das fantasias. É a coordenação perfeita. Num país em que tudo é conflito, os Poderes mostram que sabem cooperar — desde que seja para fazermos um pequeno gasto, claro, para a alegria do povo.
Não há veto indignado contra penduricalhos. Não há decisão dura contra aumento de orçamento. Não há CPI da farra institucional.
Quando o dinheiro público aparece, o samba é um só.
Enquanto isso, na arquibancada, está o brasileiro comum. Ele não escolhe o enredo, não vota o samba, não define a fantasia. Mas paga tudo: o ingresso, a iluminação, o som, a limpeza e até os cálices dos camarins.
Paga com imposto direto, imposto escondido no preço, inflação disfarçada e serviços públicos que prometem espetáculo e entregam ensaio.
É Mestre-Sala involuntário de um Carnaval que nunca termina. MASTER-SALA ficaria bem melhor para esse carnaval de 2026.
E aí vem chegando a quarta-feira de cinzas, lindíssima como uma Porta-Bandeira, ao lado do seu Master-Sala.
A história ensina — e a economia confirma — que não existe festa eterna. Como lembrava Mário Henrique Simonsen, inflação é o imposto que ninguém vota, mas todo mundo paga. E Roberto Campos já avisava que o Estado brasileiro tem talento especial para gastar como rico e cobrar como agiota.
O problema não é o Carnaval. O problema é fingir que ele é grátis.
Nesta segunda-feira gorda, o Brasil toca e dança. Dança bonito, dança caro, dança sem olhar o caixa. Mas é bom lembrar: o samba acaba, o confete cai, a bateria silencia, a purpurina dissolve — e a conta grita.
E, como sempre, não sobra vassoura no chão desse sambódromo. Ela já tem dono: o contribuinte, varrendo a avenida, enquanto os Poderes seguem procurando o próximo bloco.
O Brasil é o único país onde o Supremo desmoraliza o Sistema Financeiro e o Banco Central, o defensor da nossa Moeda, e os dois desmoralizados, se juntam, e desmoralizam o Guardião da Constituição: o Supremo. É muita esculhambação!
É bom não esquecer que neste ano de 2026 teremos: carnaval, boi-bumbá, quadrilhas e mais quadrilhas, Copa do Mundo de Futebol e a mais esperada festa: E-LEI-ÇÃO! a festa da democracia. O gasto, fantasiado de alegria, vai tomar conta do nosso país.
Roberto Caminha Filho, economista, já separou o dinheiro dos energéticos para continuar em pé e com os bolsos costurados.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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