Na horta com Nego Bispo

Reprodução / PCGO
Maconha plantada com outras hortaliças

Enzo organizava os materiais para mais uma aula na horta comunitária na favela Roma. Fazia um estágio em uma ong que desenvolvia projetos de agricultura urbana. Era seu primeiro trabalho. Estava no segundo ano de administração. Achou que ficaria só no escritório e aceitou a contragosto a ordem de participar dos encontros, “para conhecer a essência do projeto”, disse seu chefe.

Nunca tinha entrado em uma comunidade. Não contou para seus pais porque sabia que fariam inúmeras perguntas ou o convenceram a desistir do trampo. Ele próprio pensou em correr, mas nenhum colega demonstrou receio ou recomendou cuidado, então silenciou. Ajeitava as ferramentas para as alunas quando o telefone tocou. Era um primo que sabia da sua audácia. Ao ouvir uma pergunta sobre a favela, respondeu que “era tudo diferente, muita gente, muitas casas, vielas, parece tudo apertado. Aprendi a ter medo da polícia. Às vezes eu não entendo o que as pessoas da minha idade falam, é outro sotaque, outras palavras, outro país” e riu, para logo depois gelar, ao perceber que um homem se acercava e certamente ouvira sua conversa. Mudou de assunto, perguntando sobre o intercâmbio de seu primo, que se aproximava.

Envergonhado, Enzo se aproximou do homem para investigar o alcance de suas palavras, estaria ofendido? Ele estava agachado, mexendo na terra como se cuidasse de uma criança e disse: “Sabe o porquê do povo da favela falar gíria? Falam português na frente do inimigo sem que ele entenda. A favela adestrou a língua, a enfeitiçou. Temos que enfeitiçar a língua, entende?”

Enzo começou a mexer na terra imitando sua intimidade. “Desculpe, eu não tive a intenção…é tudo novo pra mim”, “Relaxa, menino”. Enzo perguntou: “Então é preciso enfeitiçar a língua?”, “Enfeitiçar é um pedaço, temos que pegar as nossas palavras e potencializá-las. Por exemplo, chega de desenvolvimento, o desenvolvimento desconecta. A  palavra boa é envolvimento. Para enfraquecer o desenvolvimento sustentável, nós trouxemos a biointeração; para a coincidência, trouxemos a confluência; para o saber sintético, o saber orgânico; para o transporte, a transfluência; para o dinheiro, o compartilhamento; para a colonização, a contracolonização”

O jovem parou de mexer a terra. Não entendia o que o homem dizia, mas reconhecia a força de suas palavras, ele carregava uma rebeldia que jamais sentira em si mesmo, ou melhor, era uma rebeldia com propósito, destino, nome, diferente da rebeldia vazia e sem endereço que sentia, muitas vezes atrofiada por remédios. “O senhor é de onde?”

“Sou de um Quilombo no Piauí. Fiquei na cidade grande por cerca de cinco anos, até chegar o momento em que compreendi que ali não era o meu lugar. Não consegui viver na cidade grande e retornei à roça.. A cidade não me cabe. No lugar onde nasci e fui criado, temos uma relação orgânica com todas as vidas. Todas as vidas são necessárias, são importantes”, “E aqui na cidade nada é assim, não é? Eu vivo com medo e ao mesmo tempo arrogância, medo de tomarem minhas coisas e arrogância justamente por ter essas coisas, que na real meus pais ofereceram. Parece que a cidade só separa”

O homem disse: “O que é a cidade? É o contrário de mata. O contrário de natureza. A cidade é um território artificializado, humanizado. A cidade é um território arquitetado exclusivamente para os humanos. Os humanos excluíram todas as possibilidades de outras vidas na cidade. Qualquer outra vida que tenta existir na cidade é destruída”

Dois pássaros pousaram na laje acima deles e começaram a cantar. Enzo iria fazer um comentário mas seguiu o silêncio solene que o homem dava àqueles bichos. Quando as aves voaram, eles falou: ‘Uma memória maravilhosa de minha infância, que ainda pulsa, é acordar ouvindo o canto da passarada informando quais as condições meteorológicas do dia. Os pássaros nos avisavam se ia chover, se ia ter sol ou se o céu ficaria nublado. Informado por eles, ainda antes de me levantar, eu já tinha a noção de como seria o dia. Essas são memórias recorrentes, para as quais eu volto sempre que encontro um obstáculo na minha caminhada”

Trechos do livro “A terra dá, a terra quer”, do filósofo quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo (1959-2023)

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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