
“E essa parada da direita querer colar o escândalo do banco Master no governo Lula? Bizarro. Você viu o powerpoint da Globonews? Até pediram uma desculpa meia-boca”, disse Clara a João, assim que sentaram no último assento do ônibus. Era o assunto que mais irritava João, a política, os partidos, as notícias, pra quê tudo aquilo se nada mudava?
Na verdade João vivia em uma corda bamba sentimental com Clara. Incomodava ela ter opinião sobre tudo, saber de quase tudo que acontecia. Era um feminista incontrolável e era essa ideia, a ideia de controle que os homens acreditam ter nas relações com as mulheres, que mais desafiava João, que mais latejava sua contradição. Não queria repetir o que seu pai fazia com sua mãe e sua irmã, mas ao mesmo tempo, não sabia como lidar com uma mulher inteligente e corajosa. Cansava com o falatório de Clara na mesma medida que aprendia algo novo todo dia. Em alguns momentos, rechaçava e mudava de assunto, em outros, aprendeu a perguntar. Muitas vezes, calava.
Calava porque seu peito doía. Não alcançava aquela mulher. Ela parecia seguir um caminho, tinha um chão pra pisar, enquanto ele colecionava hipóteses e sonhos distantes. Ela exalava força e ele queimava de medo, um medo silencioso e inconfessável. Essa insegurança era um veneno que ele tentava combater com duas imagens: eles na cama depois de gozarem; eles viajando para Peruíbe na casa dos pais dela. Essas cenas destilavam sintonia, sentido, colocavam o mundo em lugar seguro.
Mas ali no ônibus o que ele sentia era raiva. Raiva de não ser como ela, raiva de não conseguir se desvencilhar das ideias de seu pai, de sua família, de seus amigos. Sentia-se um ser limitado, enclausurado por regras que colidiam com a realidade. Queria ser diferente para si mesmo e para Clara. Enquanto Clara destrinchava as relações da direita com o Master, João ouvia, falava das doações do cunhado do Vorcaro para as campanhas do Bolsonaro e do Tarcísio, João balança as pernas, ela citava o rolo do Ibaneis Rocha na compra do Master pelo BRB, João coçava a cabeça, ela contava da proximidade de Ciro Nogueira com Vorcaro, João busca um ponto no horizonte, ela apontava os envolvimentos de Antonio Rueda, do Campos Neto, do ACM Neto, João explodiu e gritou: ‘Eu detesto política”. Clara tomou um susto, “mas…”, “Chega Clara, vamos ficar em silêncio um minuto por favor”. João baixou a cabeça e olhou as mãos suadas, em seu peito o embate entre a raiva e o arrependimento.
Foi aí que um moço com cara de professor cutucou o ombro de João e disse: “Meu amor, mas você pega o ônibus, né? Como que detesta política? Você sabe quem faz a linha de ônibus? Você sabe por que o ônibus é ruim? Você sabe por que ele custa o que ele custa? Você sabe por que é que você, pobre, fodido, estudante, não tem passe livre? Política! Po-lí-ti-ca, meu amor!” *. Clara pensou em defender o namorado, mas aquelas palavras traduziam exatamente o que ela não conseguia falar para João, que olhou para ela atônito.
O moço continuou: “Anjo, só existem duas possibilidades de você ser apolítico. Se você é um privilegiado, mas privilegiado ao ponto de poder parar de trabalhar por quatro gerações. Aí você pode ser apolítico numa boa. Ou você é um alienado, massa de manobra. Tirando esses dois lugares, não existe ‘apolítico’”. Clara então reconheceu o moço: “Guilherme, quer dizer, Rita?”, “Sim”, “É o Guilherme Terreri, que faz a Rita von Hunty, amor!”. “Oi”, disse João ressabiado, reconhecendo o nome, mas sem saber do que tratavam os vídeos que Clara assistia. Clara desabafou: “Ai, tenho andado com tanto medo, você não acha que vivemos uma guerra contra as mulheres e a comunidade LGBTQIA+?
“Sim, e tem muito a ver com a desvalorização das nossas vidas. E dentro do recorte LGBT, quem mais sofre são as mulheres trans negras. São os corpos que acumulam em si essas três marcas indesejáveis para o sistema. A marca da fêmea, a marca da raça e a marca da classe, porque a gente também está falando sobre pobreza. Falar sobre esses assassinatos é falar sobre como a nossa sociedade está organizada, e são corpos superexplorados e supersubalternizados. E a gente tem que sempre pensar também em quem assassina esses corpos. Muitas mulheres trans são assassinadas pelos seus parceiros que, na maioria das vezes, são homens heterossexuais que estavam com mulheres trans e que têm medo do que vai acontecer ao serem descobertos. É um assunto muito extenso, mas, basicamente, eu o vejo a partir de um lugar de organização da nossa sociedade”, falou.
João respirou aliviado ao perceber que faltavam dois pontos para chegar em casa e disse para Guilherme: “Desculpe, mas a gente já vai descer”. Clara perguntou a Guilherme: “Você vai descer onde?”, “No ponto final”. Clara olhou para João e falou: “Vou com ele até o final, se quiser descer, sem problema”. João tentou conter a surpresa e a indignação, mas levantou-se e disse um “tchau” contrariado.
Desceu do ônibus e viu o coletivo partir, com o sentimento de que mais uma vez o mundo andava, e ele ficava para trás.
*Trechos da entrevista de Guilherme Terreri à Revista Continente (01/02/2021)
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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