Nova sede de governo: moradores veem jogo de empurra com desapropriações

Édson Lopes Jr/SECOM
Parque Princesa Isabel é inaugurado no Centro da capital após revitalização da área

Moradores de prédios que serão demolidos para a construção da nova sede do governo estadual no centro de São Paulo têm vivido uma rotina de incertezas em meio ao avanço do projeto e relatam um jogo de empurra-empurra por parte da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) no processo de desapropriações.

Pegos de surpresa com o anúncio da obra, em 2024, os moradores dos edifícios Princesa e Henrique, alvos do projeto, afirmam ter sido procurados no primeiro semestre de 2025 pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). A estatal teria perguntado ao grupo quem teria interesse em uma negociação amigável para deixar os imóveis.

Segundo ele, a companhia chegou a enviar peritos para avaliar o valor dos imóveis. Depois disso, no entanto, a estatal parou de retornar às tentativas de contato dos moradores.

Agora, tanto a CDHU quanto a gestão Tarcísio afirmam que as desapropriações não serão mais conduzidas pelo governo, e ficarão totalmente sob a responsabilidade da empresa privada que vai gerir a obra. O Metrópoles apurou que as perícias nos apartamentos serão refeitas do zero.

As propostas da CDHU

Silvio mora há 20 anos com a família no prédio que fica em frente ao Parque Princesa Isabel, em uma das quadras que serão totalmente modificadas pelo projeto. Desde que soube da obra do governo, ele tem participado das reuniões e audiências públicas sobre o projeto.

O aposentado conta que estranhou quando a CDHU apresentou, em maio, uma proposta de negociação antecipada aos moradores do seu prédio e de um edifício vizinho. Isso porque o próprio edital do projeto previa que as desapropriações seriam negociadas pelo consórcio que assumisse a parceria público-privada (PPP).

“Eu só deixei a CDHU avaliar o meu apartamento porque fiquei com medo. Porque, no fim, eu ia ficar sozinho dentro do prédio”, diz o aposentado, comentando que a ideia de negociar diretamente com o governo animou seus vizinhos e ele achou melhor não ser o único a esperar pelo leilão.

Naquele dia, representantes da CDHU disseram que os moradores poderiam negociar entre a possibilidade de receber uma indenização no valor do apartamento ou fazer uma permuta por outro imóvel. Até mesmo a possibilidade de que a companhia financiasse outra residência foi aventada pelos representantes. O encontro contou com a presença do presidente da CDHU, Reinaldo Iapequino.

“[Eles disseram] que teria dois caminhos: ou nós faríamos com eles, ou com a empresa que ia ganhar a licitação lá no leilão”.

“Destruir apartamentos”

Odair diz que, naquele dia, o presidente da companhia disse que a CDHU começaria a “destruir” os apartamentos que fossem sendo deixados vazios, mesmo que outros vizinhos ainda estivessem no prédio e quisessem entrar na Justiça para negociar, por exemplo.

O Metrópoles teve acesso a uma gravação da reunião e confirmou a fala. No áudio, Reinaldo diz que a companhia buscará entrar em acordo com 100% dos moradores, mas que se tiver uma maioria de apartamentos vazios, começará a descaracterizá-los.

“Imagina que a gente consiga [esvaziar] 30 [apartamentos]. Se a gente conseguir 30, o que nós vamos fazer? Vamos destruir os apartamentos por dentro. Eu não posso gerar risco de ter invasão. A gente precisa ter as nossas condições”, disse o presidente.

Odair e Silvio dizem que quase todos os moradores aceitaram negociar antecipadamente com a CDHU, mas desde setembro de 2025 o grupo não tem mais retorno da companhia. O grupo chegou a montar um abaixo-assinado cobrando resposta sobre o andamento do processo, mas não foi mais atendido pelo governo.

A escolha do governo

Diretor-presidente da Companhia Paulista de Parcerias, empresa estatal que estruturou o projeto da PPP no centro, Edgar Benozatti disse que a gestão Tarcísio optou por manter as desapropriações com o setor privado “para proteger o cronograma” da obra, que tende a andar mais rapidamente quando essa etapa é feita pela iniciativa privada, segundo ele.

Em entrevista ao Metrópoles, Edgar afirmou que os apartamentos passarão por uma nova perícia, contratada pela concessionária e revisada por um certificador independente, para garantir um preço atualizado e justo aos proprietários.

“Mesmo que eu quisesse utilizar esses laudos [que já foram feitos pelos peritos anteriores], à medida que o tempo vai passando, eu vou prendendo a data base. Então, de todo modo, a gente precisaria fazer aqui um novo estudo, um novo laudo, até pra dar o valor justo por morador, que pode ter feito uma reforminha na casa dele, algum tipo de melhora ali. Isso tem que ser levado em consideração”.

Segundo o diretor, as propostas feitas pela concessionária para as desapropriações serão exclusivamente de pagamento em dinheiro pelo valor do imóvel, não sendo mais ofertadas possibilidades de permuta, por exemplo. Edgar disse que as famílias receberão um valor adequado para que possam se manter no centro.

A reportagem questionou se ao diretor se ele sabia que a CDHU tinha apresentado uma proposta independente aos moradores e enviado peritos próprios antes, mas ele afirmou “não recordar” de “todos os detalhes das ações da CDHU”.

“Fato é que a CDHU foi muito parceira nesse aspecto de diálogo com a população, porque é um processo complexo. É um processo razoavelmente traumático para as pessoas. A gente tenta que ele seja o mais suave possível, mas a gente reconhece as dificuldades inerentes a esse processo de desapropriação”, afirmou.

O que diz a CDHU

Em nota, a CDHU disse que iniciou o diálogo com os moradores dos edifícios Henrique e Princesa “com a finalidade de dar transparência à situação e de abrir as tratativas sobre as desapropriações”.

A empresa afirma que realizou duas reuniões com os residentes e apresentou os procedimentos necessários à desapropriação, “incluindo todas as etapas e exigências formais”.

“Todo o histórico das tratativas com os moradores será disponibilizado à coordenação do projeto e ao consórcio vencedor”, diz a nota. A empresa não respondeu por que deu início ao processo de negociação para a desapropriação e depois parou de responder aos moradores.

O governo Tarcísio prevê que 312 imóveis, entre residenciais e comerciais, serão desapropriados para a obra. No total, a estimativa é que o número de famílias que precisarão deixar suas casas passe de 700.

A gestão promete que tanto quem vive em casas próprias quanto as famílias moram em pensões e cortiços na região terão condições de continuarem morando no centro.

Veja fotos do projeto:

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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