26/03/2026 10:57, atualizado 26/03/2026 10:57
A Ferrogrão (EF-170), ferrovia de 933 quilômetros projetada para ligar o Mato Grosso ao Pará, é apresentada como o ápice da eficiência logística para o escoamento da safra de grãos. No entanto, lideranças indígenas e especialistas alertam que o projeto carrega o risco de repetir o colapso social observado na usina de Belo Monte. O empreendimento ameaça gerar impactos lineares por toda a extensão da Amazônia, criando uma conta social que raramente aparece nos balanços financeiros do agronegócio.
O projeto abrangerá diretamente 14 municípios, incluindo Itaituba, Novo Progresso e Trairão, em uma região marcada por dinâmicas migratórias intensas. O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental de 2024 projeta um investimento de R$ 9,69 bilhões.
Essa massa de pessoas colide com a infraestrutura frágil das cidades que serão cortadas pelos trilhos. Os municípios apresentam déficits históricos em saúde, saneamento e educação, o que sinaliza um colapso iminente no atendimento básico. A disparidade entre a fase de obras e o início da operação é o principal vetor de desequilíbrio para o sudoeste paraense, que não possui um parque industrial capaz de absorver a mão de obra após a conclusão do projeto.
Especialistas descrevem o cenário como a arquitetura de um desastre anunciado.
“Quando a obra for finalizada, a tendência é que milhares de desempregados sejam empurrados para economias ilícitas. O histórico de Altamira serve como exemplo, onde o fim das obras de Belo Monte resultou em um exército de pessoas vulneráveis sendo absorvidas pelo garimpo, pela grilagem e pelo crime organizado”, alerta Melillo Dinis do Nascimento, advogado do Instituto Kabu (povo Kayapó- Mebêngôkre), da Associação Iakiô (povo Panará) e da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil).

Dados da 4ª edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, de novembro de 2025, reforçam essa preocupação. Altamira ocupa hoje a quarta posição nacional em conflitos por terra, segundo a Comissão Pastoral da Terra. A expansão demográfica descontrolada da última década catalisou a força de facções criminosas, transformando a região em um polo estratégico para o narcotráfico e elevando drasticamente os índices de mortes violentas.
Para os povos originários, a Ferrogrão representa um cerco territorial que fragmenta a floresta e facilita a entrada de grupos ilegais. Lideranças do povo Kayapó e Panará afirmam que o desmatamento e a grilagem ignoram a existência das aldeias em nome de um desenvolvimento que não chega às bases. A ferrovia funcionaria como uma barreira física, deixando as fronteiras indígenas vulneráveis ao avanço dos conflitos agrários que acompanham as grandes obras.
O avanço desses projetos de infraestrutura também coloca em xeque a segurança alimentar das populações locais.
“A substituição da biodiversidade pela monocultura e a alteração dos cursos hídricos desestruturam o modo de vida tradicional. Ao transformar a floresta em um corredor de carga para o mercado externo, o Estado retira a capacidade das comunidades de sobreviverem do que a terra produz, priorizando o lucro em detrimento da dignidade humana”, explica Cleber Oliveira de Araújo, biólogo e indigenista da Associação Iakiô (povo Panará).
Diferente do impacto localizado de uma usina hidrelétrica, a Ferrogrão promove danos ao longo de toda a sua extensão linear. A obra ameaça sobrecarregar cidades já precárias e marcar o coração da Amazônia com um ciclo de violência e descaso estatal.
Diante das projeções de bilionários investimentos em capital, a pergunta que permanece sem resposta por parte do poder público é quem será o responsável por pagar a conta social desse empreendimento.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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