
A causa das mulheres iranianas e também das afegãs e de todas aquelas que vivem sob teocracias muçulmanas deveria ser prioridade da esquerda, fosse a esquerda humanista, como ela gosta de apregoar.
O humanismo da esquerda, no entanto, termina logo ali na esquina, onde começa o cálculo político que privilegia o antiamericanismo, o anticapitalismo, o antissemitismo. É humanismo no qual uns são mais humanos do que outros.
Essa imoralidade nunca foi tão evidente como no caso do Irã, e não apenas em relação às mulheres tratadas como cidadãs de segunda classe e submetidas a toda sorte de abusos.
O massacre dos civis iranianos que foram às ruas para exigir a derrubada do regime dos aiatolás, opressores brutais há 47 anos, foi ignorado pela esquerda. É que só havia judeus em Gaza, não em Teerã — e, portanto, “no Jews, no news”. A luta contra a opressão depende do opressor, a lição do camarada Stalin permanece atual.
É essencial para a verdade histórica que se aponte a falsidade da esquerda em relação à sua propalada superioridade moral, e a enxadrista iraniana Mitra Hejazipour, naturalizada francesa, o fez lindamente em entrevista ao jornal Le Figaro.
Campeã do Irã e da Ásia, ela desafiou o regime dos aiatolás em 2019 ao retirar publicamente o seu hijab durante um torneio em Moscou. Expulsa da equipe iraniana, Mitra se mudou para a França e se tornou campeã nacional da segunda pátria. A sua história está relatada na autobiografia A Jogadora de Xadrez, publicada em janeiro.
Na entrevista a Le Figaro, ela reproduziu o sentimento da maioria dos seus compatriotas: para eles, não importa se o presidente americano é Donald Trump, se os seus pretextos são falsos ou verdadeiros, se a guerra é um erro geopolítico ou não. Tudo o que importa é derrubar a teocracia no Irã.
Reproduzo a seguir algumas respostas de Mitra ao jornal:
Sobre a morte de Ali Khamenei:
“Há décadas que milhões de iranianos esperavam o fim desse homem e do que ele encarnava. Nada ressuscitará as vítimas desse regime, nada apagará as vidas destruídas, as torturas, as execuções, as humilhações. Mas, desde que essa ditadura criminosa se apossou do Irã, há 47 anos, é a primeira vez que sentimos ter apoio internacional verdadeiro e a chance de ver, enfim, esse regime vacilar.”
Sobre as críticas à intervenção americana:
“Por quase meio século, os iranianos vivem sob um regime que aprisiona, tortura e atira para matar contra o seu próprio povo. Os iranianos já arriscaram tudo. Foram às ruas inúmeras vezes, desarmados, ao custo da sua liberadade e, às vezes, da vida dos seus parentes e amigos. Quantas mortes mais serão necessárias para que alguns entendam que o regime não é reformável? Apoio a sua queda não é ser belicista: é reconhecer uma necessidade histórica e humana. E eu acrescentaria que esse regime não é apenas um perigo para os iranianos; é também uma ameaça à estabilidade regional e ao mundo.”
Sobre existir uma nostalgia em relação ao regime do xá no Irã:
“Existe, sobretudo, uma nostalgia do Irã como nação, do Irã como civilização, do Irã como pátria. Para romper o impasse atual, precisamos nos reconectar com a nossa identidade nacional, que o regime islâmico tem buscado sufocar sob uma identidade ideológica e religiosa imposta. O patriotismo iraniano transcende afiliações comunitárias, étnicas ou religiosas. Quando manifestantes gritam ‘Viva o xá!’, não se trata necessariamente de uma expressão de apego doutrinário à monarquia; muitas vezes, é um grito patriótico. As mulheres no Irã conquistaram o direito ao voto antes mesmo da Suíça!”.
Sobre a atitude da esquerda ocidental em relação aos iranianos:
Na sequência, Mitra respondeu sobre ter reagido a uma postagem no X de uma deputada muito estridente da esquerda radical francesa, chamada Manon Aubry, que escreveu: “Nem xá, nem mulá, nem USA: liberdade por e para o povo iraniano!”. Foi neste momento da entrevista a Le Figaro que ela deu xeque-mate:
“Estou farta desse reflexo paternalista de uma parte da esquerda ocidental, que fala em nome do povo iraniano sem realmente ouvi-lo. Quem são eles para dizer aos iranianos o que é melhor para eles? Com que direito os políticos europeus, muitas vezes tão distantes da realidade do Irã, se atrevem a atribuir notas altas de moral? Esse tipo de slogan pode parecer generoso vindo de Paris ou de Bruxelas, mas muitas vezes soa como mera encenação. Uma parte da esquerda ocidental fechou os olhos durante anos para a verdadeira natureza do regime iraniano, chegando a fomentar uma complacência condenável em relação a ele. Os iranianos não têm lições a aprender com pessoas que nunca arriscaram as suas vidas enfrentando os aiatolás.”
Mitra Hejazipour está certa: ninguém tem nada a ensinar aos iranianos, muito menos a esquerda ocidental que apoiou a tomada do poder no Irã pelos aiatolás, como se o antiamericanismo islâmico fosse sinal de progressismo, e que nunca aprendeu nada nem esqueceu nada.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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