
Mais de 30 operários que atuam nas obras de expansão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo passaram mal após consumirem marmitas fornecidas por uma empresa terceirizada responsável pela alimentação dos trabalhadores. Os trabalhadores relataram sintomas como diarreia intensa e fortes dores abdominais após a refeição.
Na hora do almoço da última quinta-feira (19/3), como de costume, os operários das obras receberam as marmitas por volta das 12h. O cardápio incluía carne de porco, carne bovina, arroz, feijão e salada, e todos se alimentaram normalmente no canteiro da obra. Na manhã do dia seguinte, sexta-feira (20/3), mais de 30 trabalhadores acordaram, apresentando os mesmos sintomas: diarreia intensa e fortes dores no intestino e na região abdominal.
Em entrevista ao Metrópoles, um operário que prefere não se identificar descreveu o cenário. “A gente foi trabalhar, mas não deu. O canteiro inteiro passou mal. Foi diarreia para todo mundo. Eu mesmo não dormi a noite inteira, só indo ao banheiro”, contou.
Segundo o relato, os sintomas se intensificaram já no início da manhã de trabalho, com idas constantes ao banheiro, mal-estar generalizado e dificuldade para seguir nas atividades. Diante da situação, os operários que passaram mal precisaram registrar seus nomes em um relatório do Metrô e foram afastados das funções naquele dia.
O trabalhador contou ainda que precisou ir a uma farmácia para comprar medicamentos contra diarreia e dores abdominais. “Eu me senti até fraco. Me hidratei, cheguei em casa, consegui me alimentar melhor, mas fiquei com fraqueza o dia todo”, relatou. Segundo ele, os sintomas persistiram até a tarde de sábado (21/3), com melhora apenas no domingo (22/3). O operário afirmou que segue tomando os medicamentos indicados.
“Textura gosmenta”
O episódio, segundo o operário, não foi um caso isolado. Ele afirma que a qualidade da alimentação fornecida pela empresa terceirizada já é alvo de reclamações constantes entre os trabalhadores. De acordo com o relato, os problemas vão desde o sabor até a aparência dos alimentos, que muitas vezes chegam ao canteiro em condições consideradas inadequadas. “Não é de hoje que o pessoal reclama. Sempre teve problema com essa comida”, disse.
Ainda segundo ele, há um histórico de insatisfação coletiva. No entanto, de acordo com o trabalhador, as queixas não resultaram em mudanças efetivas. “Toda vez que aparecia o pessoal, a gente comentava da comida, mas nunca resolveu” afirmou. Entre os exemplos citados, o operário mencionou episódios que reforçam a desconfiança sobre a qualidade da alimentação.“Teve uma vez que fui pegar salada e a beterraba estava com um cheiro ruim, com uma textura meio gosmenta”, contou.
Irregularidades na manipulação de alimentos
De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, por meio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), uma inspeção realizada na última segunda-feira (24/3) identificou irregularidades na manipulação de alimentos e nos processos de trabalho da empresa responsável pelas marmitas, o que resultou na autuação. Segundo o órgão, os problemas envolvem falhas nos procedimentos adotados durante o preparo e o manuseio dos alimentos.
A pasta informou ainda que, em uma vistoria anterior, realizada no dia 20 de março, foi constatado que as refeições são preparadas no próprio local por uma empresa terceirizada. Na ocasião, os fiscais foram informados de que não havia registros de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) em outras unidades, e a cozinha estava fechada no momento da inspeção, o que limitou a verificação completa das condições de funcionamento.
“Isso é um absurdo, um total descaso com os trabalhadores. Ninguém aqui é cachorro para ficar comendo comida velha, na verdade, nem com cachorro se faz isso. Nós somos trabalhadores, que levantam cedo para chegar na obra”, afirmou o funcionário.
Procurado, o Metrô de São Paulo informou, em nota, que tomou conhecimento das denúncias sobre a qualidade da alimentação e que acompanha o caso. As obras são executadas pelo Consórcio do Lote 3, formado pelas empresas PowerChina Brasil e Mendes Júnior, responsável pela contratação dos profissionais e pelo fornecimento da alimentação. De acordo com o posicionamento, o consórcio já presta assistência aos trabalhadores e conduz a apuração das possíveis causas do episódio.
Histórico de problemas
As obras de expansão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo fazem parte de um dos principais projetos de mobilidade urbana da capital, com previsão de ampliação do trajeto entre a Vila Prudente e a Penha, além de uma segunda fase que deve estender a linha até Guarulhos.
Apesar dos avanços prometidos, o projeto tem sido marcado por uma série de polêmicas já relatadas anteriormente pelo Metrópoles. Em outubro de 2025, moradores da região denunciaram impactos diretos das obras em suas rotinas, incluindo rachaduras em imóveis, registros de saques em casas desocupadas e até o aparecimento de escorpiões em áreas próximas aos canteiros. Diante da gravidade das denúncias, o Ministério Público de São Paulo chegou a recomendar a suspensão das atividades, mas, à época, os trabalhos seguiram normalmente.
A primeira fase da expansão prevê a construção de oito novas estações, conectando a Linha 2-Verde à Linha 3-Vermelha, enquanto a , ampliando ainda mais a capacidade do sistema. No entanto, os problemas relatados por moradores e, agora, por trabalhadores das obras, colocam em mostram os desafios enfrentados ao longo da execução do projeto.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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