Os desafios da esquerda progressista na eleição de 2026
A eleição que se aproxima apresenta desafios para todas as forças políticas do Acre. A direita, a extrema-direita, o centro, a esquerda, enfim, todos precisam responder a desafios que são da natureza do jogo em curso. Quem está ocupando a posição principal irá jogar parado ou se mexerá numa direção, radicalizando o discurso ideológico, por exemplo? Ou irá apostar em mais gestão e respostas concretas aos problemas do povo e menos moralismo conservador? Quem está no governo vai disputar ideologia e, portanto, tentar avançar no campo do adversário eleitoral, ou apostará na apresentação de soluções em políticas públicas e na construção do futuro? E quem entra espremido entre dois grandes blocos com os quais guarda similaridades, como Bocalom, o que fazer para não se tornar irrelevante no processo?
Mas, aqui, quero explorar especialmente os desafios que se apresentam ao campo progressista, aquele formado pelos partidos à esquerda na escala ideológica (a escala ideológica, como você sabe, mede o nível de distância da pessoa em relação aos interesses em disputa. Quanto mais próxima a pessoa estiver dos interesses das classes ricas e proprietárias, mais à direita. Quanto mais próxima dos interesses do povo e das classes populares, mais à esquerda).
Os progressistas no Acre – e, por favor, não confundir com o Partido Progressista, que na verdade, é conservador -, atravessam um momento que exige mais do que ajustes táticos ou rearranjos eleitorais. O que está em jogo não é apenas desempenho eleitoral, mas sua capacidade de voltar a ser relevante na organização do debate público e na formulação de alternativas econômicas e sociais para o Estado.
Em um passado relativamente recente, o campo progressista não apenas disputava o poder. Ele estruturava a própria governança pública no Acre. Foi quando o Estado reencontrou um mínimo de racionalidade administrativa, depois de um longo período de desorganização, improviso e baixa capacidade de governo.
Mas a política é dinâmica e não garante posições conquistadas. O jogo mudou e o ciclo se fechou. O que se vê hoje é um campo que, em grande medida, mais reage aos acontecimentos do que propõe, acompanha mais do que conduz. E isso não é um problema apenas eleitoral. É um problema para a própria qualidade da democracia no Acre. O campo progressista não é apenas mais um ator no sistema político. Ele tem a função e a capacidade de organizar alternativas, tensionar o debate e qualificar as escolhas políticas no interior da sociedade, apontando horizontes estratégicos alternativos ao velho jogo de poder das elites. No Acre de hoje, essa ausência é evidente.
O empobrecimento do debate político, muitas vezes reduzido a disputas superficiais e pouco conectadas com os problemas estruturais da região e da vida do povo, revela exatamente isso. Falta uma oposição que seja estrutural e programática, capaz de apresentar caminhos, de organizar ideias e de disputar o futuro.
Mas, para o campo progressista, essa reconstrução passa, necessariamente, por uma reconexão com a sociedade real.
Durante muito tempo, a esquerda foi o espaço de articulação de pautas fundamentais das camadas populares: terra, trabalho, salário, moradia e direitos. Hoje, esse vínculo se encontra fragilizado. Os movimentos sociais perderam capacidade de incidência, e os partidos, em grande medida, perderam a capacidade de escuta e de tradução dessas demandas em agenda política consistente.
Mas é na economia que o desafio é especialmente importante. Sem uma agenda econômica consistente, não há projeto político que se sustente. E aqui reside um dos pontos mais sensíveis do debate atual. Consolidou-se, nos últimos anos, a ideia de que o agronegócio de larga escala, especialmente pecuária, soja e milho, seria o principal vetor de desenvolvimento do Acre. O problema é que, na prática, esse modelo não vem entregando aquilo que promete.
Gera poucos empregos, agrega pouco valor, tem impacto limitado na arrecadação e concentra renda. Em outras palavras, é um modelo que, baseado na grande propriedade fundiária, ocupa território, mas não organiza a economia e nem dinamiza a sociedade.
Nesse campo surge uma oportunidade estratégica que ainda não foi plenamente compreendida pela sociedade acreana. Ao mesmo tempo em que o agronegócio mostra suas limitações, experiências concretas, iniciadas lá atrás, começam a apontar uma outra possibilidade, um outro caminho. O café no Juruá é, hoje, o exemplo mais evidente. Agora, o cacau começa a ganhar espaço na mesma lógica. Em ambos os casos, o que se observa é a força de um modelo baseado na produção familiar, no cooperativismo e na agregação de valor.
Não por acaso, experiências bem-sucedidas no Brasil seguem essa mesma direção. Santa Catarina – o lugar para onde tanto de nós estão se mudando – construiu uma economia fortemente apoiada na produção familiar, no cooperativismo, na pequena e média empresa, combinando conhecimento, tecnologia e agregação de valor. O resultado é um tecido econômico diversificado, com maior distribuição de renda e forte dinamismo regional. Esse é um caminho que, guardadas as devidas proporções em termos de escala econômica e comportamento político, oferece referências interessantes para o Acre.
Porque não se trata apenas de produzir mais. Trata-se de produzir com inclusão, gerar renda distribuída, criar redes econômicas locais e ampliar a circulação de riqueza no próprio Estado. Trata-se de incorporar no processo produtivo atividades que demandam tecnologia, inovação e trabalho de inteligência, mais que trabalho braçal. Trata-se de elevar o grau de complexidade das cadeias de valor.
E isso não é novidade absoluta. O Acre já vive experiências nessa direção. Empreendimentos como a Dom Porquito e a Acreaves, no Alto Acre, demonstraram, ainda no ciclo anterior, que é possível estruturar cadeias produtivas com maior complexidade, maior agregação de valor e maior capacidade de geração de empregos, impactando positivamente a vida das pessoas e de suas comunidades.
O desafio, portanto, não é a falta de caminhos. Eles existem e estão, inclusive, em curso. O desafio é transformá-los em eixo estruturante de uma estratégia de desenvolvimento para o Estado. E é exatamente nesse ponto que o campo progressista pode reencontrar sua relevância.
Não como defensor de uma identidade abstrata, nem como expressão de um discurso que fala para si mesmo, mas como articulador de um projeto concreto, capaz de responder às demandas reais da sociedade acreana.
Um projeto que combine produção e inclusão, e que fortaleça o tecido social, preparando o Acre para os desafios que estão vindo – os prováveis impactos da implantação da ferrovia de capital chinês que ligará as regiões centrais do Brasil ao Porto de Chancay, no Peru, são um bom exemplo.
Isso exige mudança de postura. Exige sair da reação e voltar à formulação. Exige menos ênfase na identidade e mais foco na capacidade de oferecer respostas.
Ou seja, a questão é simples: o campo progressista só voltará a ser relevante no Acre quando voltar a ser necessário. E ser necessário, na política, significa interpretar o tempo, compreender os problemas reais e oferecer soluções que façam sentido para a vida concreta das pessoas.
O Acre está diante de desafios grandes e conhecidos. Quem conseguir organizá-los em um projeto claro, mobilizador e viável econômica, social e ambientalmente ocupará o centro do debate e, muito provavelmente, o centro do poder.
Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

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