
Em tempos de incerteza geopolítica e caos climático galopante, a economia padece com a fragilização de um de seus pilares fundantes – a previsibilidade. Ao contrário do que se possa pensar, os investidores não são aventureiros atraídos pelo risco. O mercado funciona com um olho nas expectativas de retorno e outro nas ameaças externas. Afinal, tanto a alta gerência como os acionistas sabem que os negócios só vão bem quando o cenário é promissor.
Acontece que o panorama político e econômico atravessa uma rearrumação da Ordem Internacional que há décadas vinha dando estabilidade às relações comerciais, financeiras e políticas entre os países, com efeito imediato sobre os mecanismos que regem as políticas públicas e os empreendimentos privados em qualquer lugar do mundo. Para completar, toda essa reglobalização ocorre simultaneamente com as transformações ambientais igualmente imprevisíveis provocadas pelo aquecimento global desgovernado.
Já dizia o filósofo Sêneca, “Nenhum vento é bom quando não se sabe aonde ir”. Por isso, quanto mais elevado é o grau de incerteza, maior será o peso da variável risco na equação do mercado e dos governos. É aí que ganha importância aquela palavrinha da moda – resiliência. Segundo a IA do Google, “Resiliência é capacidade de superar adversidades, adaptar-se a mudanças e recuperar-se, evoluindo sem sofrer danos irreversíveis”. Dito de outra forma, os países e as empresas mais resilientes estarão melhor capacitados para enfrentar o reordenamento geopolítico e climático e sair do outro lado da tormenta em melhores condições de seguir em frente.
Nesse sentido, dois estudos recentes trouxeram informações importantes para os acionistas e CEOs da nossa Terra da Santa Cruz. Um deles, realizado pela consultoria BTA Associados, chama a atenção para o perfil organizacional predominante no País. Apesar dos avanços tecnológicos alcançados nos mais diversos setores, um dos maiores obstáculos da nossa economia à inovação (e resiliência) é “a forma autoritária como ainda se organizam as estruturas de poder nas nossas empresas” (Valor, 24/02/26). Significa dizer que “a disciplina inicial frequentemente nasce da obediência, e não da internalização dos métodos de trabalho, reflexo de um sistema autocrático”, segundo a pesquisadora Betânia Tanure.
Por esse motivo, as startups, por exemplo, apresentam perfil mais resiliente e inovador. O nível decisório dessas empresas é mais ágil e, digamos, democrático, do que o das empresas tradicionais. Nas startups, a própria natureza original do negócio traz no DNA corporativo esse gene da “via de mão dupla” no tratamento dos desafios e tarefas do dia a dia.
Outro estudo, realizado pela multinacional Gartner, mostra que as empresas em todo o mundo estão demitindo, na expectativa de ganhar produtividade com o uso da IA, mas os ganhos ainda são decepcionantes. “Como resultado, vemos uma retenção de executivos desmotivados e danos às marcas empregadoras” (Valor – Carreiras, 23/02/26). Ou seja, o mercado está abrindo mão de pessoas que conhecem o negócio, em troca de profissionais que operam tecnologia. O resultado será a perda de visão de futuro e de capacidade decisória consistente.
Se tudo isso for verdade, teremos problemas para interpretar as mudanças políticas, economias e climáticas, assim como para tomar decisões realistas com a agilidade que os próximos anos exigirão, para a prosperidade da humanidade, a eficiência do Estado e a sobrevivência dos negócios.
Felipe Sampaioé diretor de Programas no Ministério do Empreendedorismo e Pequena Empresa; cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria do Ministro da Defesa; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; foi empreendedor em mineração; atuando com grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor.




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