PM Gisele: coronel combinou sessão de tiros com desembargador antes de morte

Reprodução/Instagram
Homem de cabelo branco e terna em meio a policiais militares fardados - Metrópoles

Classificado como melhor amigo pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan aceitou um convite para atirar com fuzil calibre 762, o mais poderoso usado pela Polícia Militar paulista, um dia antes de a soldado Gisele Alves Santana ser assassinada, em 18 de fevereiro.

Geraldo Neto foi indiciado pelo feminicídio da soldado, concretizado com a arma de serviço do oficial, além de fraude processual — desde o último dia 18 — após a Polícia Civil levantar provas e testemunhos que indicam que o oficial teria matado a esposa, com um tiro na cabeça. Desde então, o oficial sustenta que ela se suicidou e segue trancafiado no Presídio Militar Romão Gomes.

Na véspera do crime, como mostram trocas de mensagens pelo WhatsApp, obtidas pelo Metrópoles, Marco Cogan aceitou um convite, feito pelo comandante do Comando de Policiamento de Área Metropolitana 5 (CPAM-5) — responsável pelo policiamento na zona oeste de São Paulo — para atirar com a arma de guerra.

“Falei com o coronel [Allan Marques] Bueno, comandante do [CPA]M-5, ele falou que o dia 06/03 será uma honra receber Vossa Excelência e estende o convite para quem Vossa Excelência levar. Sugeriu estender o convite a Vosso irmão”, escreveu Geraldo Neto.

O magistrado aceitou, questionando em qual horário deveria comparecer no batalhão. “Agradeça por mim a ele”, acrescentou, referindo-se ao comandante do CPAM-5, superior hierárquico de Geraldo Neto.

No dia seguinte, já pela manhã, Marco Cogan foi novamente procurado pelo tenente-coronel, que solicitou a presença do magistrado na cena do crime que, até aquele momento, era ainda tratado como suicídio.

O desembargador, como mostrado pelo Metrópoles, ingressou no apartamento onde a soldado foi baleada, antes de o local ser periciado, para acompanhar o tenente-coronel — o qual tomou banho, desrespeitando orientações dos colegas de farda que tentavam preservar o local.

A presença do magistrado, que afirmou em depoimento ter ido ao local na condição de amigo do oficial, é apurada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A reportagem não localizou o desembargador. O espaço segue aberto para manifestações.

Troca de mensagens

A permanência de um dia todo no batalhão, a convite do comandante, para atirar, começou a ser combinada pelos amigos em 6 de fevereiro.

Às 21h42, Geraldo Neto afirmou que o coronel Bueno, comandante do CPAM-5, havia oferecido o estande do batalhão para “atirar com fuzil […] o dia que Vossa Excelência quiser”. O tenente-coronel salienta para que a data seja algum dia de semana, porque Bueno também queria participar da sessão de tiros.

O desembargador responde mencionando que também iria falar com Wagner Néspoli — ex PM militante do uso de armas de fogo — para manter para dia 27 “no outro” estande de tiros, neste caso do CPAM-4, que policia regiões da zona sul paulistana. “Ele levará [fuzil calibre] 762”, escreveu o desembargador.

Na sequência, Geraldo Neto informa que, no CPAM-5, há opções de fuzis calibre 556 e 762, este o mais poderoso em uso pela PM de São Paulo.

A conversa é encerrada com o desembargador ressaltando para marcarem datas diferentes para as sessões de tiro, “para não ficar chato com o coronel Cruz” – – referindo-se a Clodoaldo Donizetti da Cruz, comandante do CPAM-4.

“Desculpe a demora”

Em 7 de fevereiro, o desembargador envia ao coronel, pela manhã, um link no qual uma pessoa não binária fala sobre sua condição de gênero.

O link foi comentado por Geraldo Leite somente às 23h11, que pede “desculpa pela demora” sob a justificativa de que havia trabalhado o dia todo na “atividade delegada” — o bico oficial da PM — durante o pré-carnaval.

Ele reforça que marcará no começo de março para irem atirar no CPAM-5, acrescentando que, o pré-carnaval, “estava lotado de pessoas não binárias, nos blocos de pré carnaval kkkkkkk”, ao que o magistrado responder ser “o final dos tempos mesmo”.

Nos dias seguintes, os amigos trocam mensagens, links, e comentam os conteúdos até 17 de fevereiro, véspera do feminicídio de Gisele.

Neste dia, Geraldo Leite começa o papo desejando bom dia, às 12h37, comentando um dos links enviados pelo desembargador. “Essa é a realidade desse nosso Brasil. O Lula e a esquerda pode [sic] tudo”.

Marco Cogan responde ao amigo somente às 16h47, enviando link com imagens de uma submetralhadora. Geraldo Neto responde falando ter sido marcado para 6 de março o dia de tiros com fuzil no batalhão da zona oeste. A ideia, como consta nas mensagens, era permanecer no local das 9h às 17h.

Em postagens na internet, feitas por perfis de batalhões da PM, o desembargador aparece em solenidades, nas quais é homenageado, além de também figurar como palestrante a platéias exclusivamente compostas por policiais militares.

“Distância dessas coisas”

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Rafael Alcadipani, a PM costuma convidar pessoas em batalhões como forma de “relações púlblicas”, uma cortesia aos considerados VIPs.

“Acho que tem o questionamento a ser feito que é do preço da munição e o erário público que tem que pagar a munição, que não é para um treinamento policial”, destacou.

O especialista, também membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), acrescentou lhe chamar a tenção a proximidade do desembargador com policiais. “Um membro do Judiciário precisa de independêndica para poder julgar com insenção. Acho que essa independência deveria ser mais resguardada. Um juiz, ainda mais um desembarador, teria que manter distância dessas coisas”, ponderou.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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