
Uma funcionária do condomínio onde o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto morava com a policial Gisele Alves Santana afirmou à Polícia Civil que os vizinhos do casal tinham “receio” do tenente. O depoimento consta no inquérito do caso, ao qual o Metrópoles teve acesso.
A testemunha, que trabalha há seis meses no condomínio, contou que “moradores têm receio de Neto em razão de sua conduta fechada e até mesmo soberba“. Ela descreveu o policial como uma pessoa “reservada e rigorosa com a conduta dos funcionários”.
Vizinhos que também prestaram depoimento à polícia disseram que o tenente não respondia aos cumprimentos das pessoas nas áreas comuns. Uma moradora afirmou que, certa vez, ela e o marido encontraram Gisele, Geraldo e a filha da policial no elevador. Segundo ela, Gisele ficou o tempo inteiro de cabeça baixa e, quando chegaram ao andar, enquanto a PM tentava destrancar a porta, “Geraldo apressou-se para esconder a esposa para que eles não a observassem, denotando possessividade“.
A vizinha disse que nunca encontrou com a policial sozinha e que o tenente-coronel estava com ela na maior parte das vezes. A informação de que Gisele nunca estava só também foi repetida por outras pessoas do condomínio.
A moradora, que disse ter ouvido o som de um estampido às 7h28 no dia em que Gisele foi assassinada, afirmou também que Geraldo acompanhava Gisele até na academia “mesmo que ele não estivesse vestindo roupas apropriadas para fazer exercícios”.
À polícia, ela disse ainda que “nunca viu Gisele maquiada”. Os pais da agente já tinham dito que Geraldo proibia a filha de usar batom e fiscalizava os locais para onde ela ia. Como já havia mostrado o Metrópoles, discussões do casal eram frequentemente ouvidas no condomínio.
Depois de uma série de depoimentos e dos laudos da perícia, na última quarta-feira (18/3), o tenente-coronel foi preso pela polícia como o principal suspeito de matar Gisele.
A investigação policial mostrou contradições na versão de Geraldo e a presença de sangue em objetos pessoais do suspeito e no banheiro da casa, o que foi preponderante para fundamentar a hipótese de feminicídio.
Os exames realizados pela perícia — com o uso do reagente Luminol — detectaram vestígios de sangue na bermuda do policial militar e até mesmo na toalha usada por ele para se secar após tomar banho no dia do crime.
Como o Metrópoles mostrou, a polícia já havia encontrado sangue dentro do box do banheiro da casa. O material foi detectado nos registros do chuveiro, na parede e no chão do banheiro.
“A única explicação tecnicamente compatível com a presença de sangue nos registros de água, na parede, no chão do box e em sua bermuda é que o investigado entrou no banheiro já impregnado de sangue, que lavou sob o chuveiro antes de receber qualquer equipe de socorro, em conduta deliberada de destruição de evidências”, disse o delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial, que presidiu o inquérito, ao pedir a prisão do tenente.
Em outros trechos do documento, o delegado diz que o tenente-coronel “tomou banho com o propósito deliberado de eliminar os vestígios de sua participação no evento letal”.
“Trata-se de prova que confirma, simultaneamente, a autoria do feminicídio e a prática da fraude processual prevista no art. 347, parágrafo único, do Código Penal”, afirma ele.
O resultado dos laudos da perícia contraria a versão dada pelo tenente-coronel, que repetiu à polícia, e também em entrevistas, que não tocou na esposa ao vê-la caída e já ensanguentada, logo não teria como estar sujo de sangue.
Arrebatada pelas costas
Segundo a investigação do Tribunal de Justiça Militar (TJM), Gisele foi “abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita. Após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão)”, descreveu um documento do TJM ao qual o Metrópoles teve acesso.
Inicialmente registrado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita e depois como feminicídio. O TJM destacou que, no dia da morte da PM, Geraldo ligou para terceiros antes de acionar o 190.
“Os primeiros socorristas relataram que a cena que presenciaram ao chegarem no local do ocorrido foi atípica para suicídio: Gisele estava ao solo, envolta por toalha, com a arma semiempunhada na mão direita, sem contratura muscular, tendo sido retirado com facilidade pelo socorrista, com manchas de sangue concentradas na região da cabeça e do braço direito. Além disso, o investigado estava no corredor, sem camisa, ao telefone, mantendo tranquilidade incomum ao contexto, enquanto a Sd PM Gisele ainda apresentava batimentos cardíacos e respiração profunda e agonizante no interior do apartamento”, disse o documento.
Para o TJM, o mosaico probatório também aponta que o investigado era a única pessoa com Gisele antes do fato e o primeiro a intervir na cena, “o que robustece a autoria em seu desfavor”.
Relembre o caso
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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