
Quando começou a trabalhar com os Mamonas Assassinas, ainda no formato Utopia, André Oliveira de Brito, o Ralado, não recebia cachê. “Eles pagavam pra tocar”, afirmou o assistente de palco da banda que conquistou o Brasil em um sucesso meteórico, e se despediu de todos repentinamente, em 2 de março de 1996, após um acidente aéreo que matou todos a bordo.
O primeiro cachê veio mais tarde, e foi uma parte do valor que os músicos receberam para fazer a mixagem do álbum nos Estados Unidos, sob a produção de Rick Bonadio.
O valor, no entanto, foi integralmente gasto com o conserto do carro de Hildebrando Alves, pai do Dinho, após Ralado bater o veículo na traseira de uma Caravan, a caminho do estúdio na Serra da Cantareira.
O lugar, mais tarde, ficou tragicamente marcado por ser onde caiu o avião do grupo, matando todos os integrantes da banda em 2 de março de 1996, há exatos 30 anos. Além de Dinho, Bento, Júlio, Sérgio e Samuel Reoli, estavam a bordo o ajudante de palco, Isaac Souto, o segurança do grupo, Sérgio Saturnino Porto, e o piloto e co-piloto da aeronave, Jorge Germano Martins e Alberto Yoshihumi Takeda. Todos morreram no local.
“Sexto mamona”
Chamado por muitos de “sexto mamona”, Ralado conviveu diariamente com Bento, Júlio, Sérgio e Samuel Reoli, além do Dinho, de quem era um amigo próximo. Ele era o responsável por toda a parte técnica das apresentações e também até por dirigir para os músicos e pensar no cenário e roupa dos shows.
“Era uma correria total. Um projeto que foi lançado, que a gente não sabia que ia ter essa repercussão toda. Estourou, assim, como um cometa”, contou ao Metrópoles em entrevista concedida na sua casa, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.
Mesmo que todo o sucesso alcançado com o grupo tenha sido surpreendente para os familiares e boa parte dos brasileiros, Ralado conta que os músicos sempre acreditaram que, ora ou outra, o reconhecimento chegaria.
“A gente sabia que a gente ia ser alguma coisa. Porque a determinação foi fulltime em todos nós. A gente jantava o CD. A gente comia o CD. A gente ia pra praça falando no CD. Era tudo em volta desse projeto, porque esse projeto era o nosso levantar. Era o que a gente queria. Não era por dinheiro. Dinheiro era consequência”, afirmou.
Ainda que o estouro fosse esperado, aconteceu antes do planejado. Na época, o grupo, que durou pouco mais de seis meses, equilibrava uma rotina extremamente agitada, com participações quase que simultâneas em emissoras de TV, rádio e em shows. “Foi astronômico. Foi de zero a 100 em menos de um segundo”, disse.
Sobrevivente da tragédia
Passado o reconhecimento do fenômeno que foram os Mamonas Assassinas, Ralado ficou conhecido por ter escapado da tragédia que vitimou o grupo. Como assistente de palco da banda, ele sempre acompanhou todas as apresentações, mas decidiu fazer diferente na volta de Brasília a São Paulo, após o show no estádio Mané Garrincha.
A aeronave modelo LR-25D, matrícula PT-LSD, acompanhou os Mamonas durante os quatro dias de apresentações antes do acidente. Antes do show de Brasília, em uma viagem que partiu de Piracicaba, no interior de São Paulo, o avião deu um solavanco na pista, o que assustou Ralado.
Por conta disso, ele decidiu retornar de carro, mudança de planos que acabou salvando sua vida. “Foi o único show que eu não viajei com eles”, contou.
Aquele show, na visão do assistente de palco, foi como uma despedida – antes mesmo de qualquer imaginar o final trágico que a viagem teria.
Após a ida a Brasília, o grupo planejava seguir para Portugal — para uma turnê internacional. Ralado não poderia ir, porque descobriu, naquela data, que seu passaporte ainda não tinha ficado pronto. Então, sempre que ia verificar com a banda se estava tudo certo com o som, durante o show no Mané Garrincha, Dinho lhe dizia “você vai fazer falta”.
“Eu acho que foi um duplo sentido. Acho que tem despedidas que a gente, na hora, não percebe. Depois, com o tempo, você vai percebendo”, disse emocionado.
A roupa naquele dia também foi improvisada. As vestes que os músicos planejavam usar no palco sumiram do camarim. Ralado, então, precisou correr para um shopping, onde encontrou fantasias das Tartarugas Ninjas. “E foi sucesso. Tem um pessoal que tem [a fantasia]”, relembrou.
Outro detalhe curioso revelado pelo assistente ao Metrópoles é que a carteirinha da Ordem dos Músicos de todos os integrantes venceu naquele mesmo dia que encerrou a turnê nacional da banda e, tragicamente, a carreira dos Mamonas.
Fã criou banda cover com “benção” de Dinho
Outra pessoa que acompanhou o dia a dia dos Mamonas Assassinas de perto foi Cleber Santos, guarulhense que afirma com orgulho ser um dos fundadores do primeiro fã-clube e da primeira banda cover do grupo.
Ele conta que tinha entre 13 e 14 anos quando foi com amigos até uma uma apresentação da banda na casa de show Toco, na Vila Matilde, zona leste de São Paulo, vestindo uma camiseta com uma mamona estampada — e o ingresso que havia ganhado de presente de aniversário.
“A Valéria [Zoppello], que namorava o Dinho, viu a camiseta e perguntou se era um fã-clube. E a gente falou que não, não era um fã-clube, que a gente só fez a camiseta pra tirar uma onda, porque a gente achou o CD engraçado”, contou à reportagem.
Valéria imediatamente respondeu que os adolescentes deveriam, então, criar um fã-clube da banda. Dinho “abençoou” a criação dando o nome do grupo: Somrisal – a primeira banda cover dos Mamonas, e que segue, há 30 anos, fazendo apresentações.
Cleber estava no icônico show feito pelos Mamonas no ginásio Thomeuzão, em Guarulhos. A apresentação entrou para a história da banda porque, enquanto o grupo se chamava Utopia, eles não tinham recebido autorização para tocar no espaço. Somente quando estouraram, em um novo estilo músical, com apoio do rádio e da TV, é que surgiu o convite.
Dinho, sem esquecer das negativas ao grupo que originou os Mamonas, subiu ao palco e anunciou um show do Utopia.
“Eles tinham o sonho de tocar no Thomeuzão, queriam abrir o show do cantor Guilherme Arantes. Só que o dirigente do ginásio falou que eles eram uma bandinha e que era pra voltarem quando fizessem sucesso. E essa mesma pessoa tava lá. Então, eles abriram o show como Utopia e voltaram como Mamonas”, detalhou Cleber.
O fã conta o episódio com riqueza de detalhes e afirma que a atitude de Dinho “lavou a alma de muita gente”. “A gente se emocionou muito, porque a gente não esperava. Depois que entendemos, vi que eles fizeram até pouco”, comentou.
Questionado sobre o que representa os Mamonas Assassinas, Cleber afirmou: “Nostalgia”. “É, um tempo que passou e que não volta, e a certeza que eu fui feliz na minha adolescência, que eu curti”, declarou.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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