
Para muitas pessoas, realizar uma cirurgia, por mais simples que seja, pode resultar em uma mistura de sentimentos, como ansiedade e medo. Quando bem feita, a sensação de alívio é imediata. Mas casos de cirurgia mal executada viram lutos, deixam sequelas e até processos judiciais. Em 2025, por exemplo, o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) registrou 1.303 casos julgados de processos sobre cirurgias gerais no Distrito Federal.
Os dados disponibilizados pelo conselho mostram, também, um aumento de 13% no número de casos novos oriundos de cirurgias gerais. Foram 1.127 novos processos em 2025, contra 983 casos em 2024. Os números de judicializações envolvendo dano material e moral decorrente de qualquer prestação de serviço na área da saúde também aumentaram.
Entre os processos julgados em 2025 está o caso de Talisson Coelho Silva, 20 anos. O jovem passou um pouco mais da metade da vida com um pedaço de vidro dentro do corpo. Com aproximadamente 4 cm de altura, o fragmento encontrado era um pedaço remanescente de uma cirurgia, feita no Hospital Regional de Sobradinho (DF).
Veja o pedaço de vidro encontrado:

O incidente aconteceu no dia 28 de novembro de 2012, quando o jovem, com 4 anos à época, subiu em uma mesa de vidro em casa e ela cedeu. Um fragmento perfurou o jovem próximo à axila esquerda. A mãe dele, Liliane Cardoso, estava de resguardo cuidando da filha quando Talisson caiu.
“Eu saí correndo e abriram meus pontos da barriga. Ele ficava falando: ‘Mamãe, eu vou morrer’ e comecei a gritar por socorro até meus vizinhos chegarem. Foi quando eu chamei o bombeiro e levaram ele pro hospital. Chegando lá, não ‘bateram’ o raio-x, só levaram ele para sala. Tiraram um pedaço de vidro, costurou e mandou ir embora com um atestado“, conta.
Com o passar dos anos, tanto a mãe, quanto o filho, sentiam que uma região do peito do jovem era um pouco mais elevada. Entre mais de 10 idas e vindas ao hospital, sempre era repassado aos dois que aquilo era “normal”. Conforme o tempo passava, ambos começaram a sentir uma “ponta” ao passar a mão no local.
Raio-x foram negados por médicos, com justificativas de que podia ser um osso ou uma “inflamação” causada pelo sobrepeso do jovem.
“Eu sentia dor no peito e sempre me falavam que era a clavícula e teve um médico que me ‘receitou’ ir a academia”, conta Talisson.
Os anos passavam, a dor permanecia e a rotina começou a ser afetada. Talisson conta que começou a sentir limitação para levantar peso com o braço esquerdo. Não bastasse, passou a sentir dificuldade na ingestão da comida, com a sensação de que havia algo “rasgando” seu corpo, próximo à garganta.
Foi quando em 12 de maio de 2023, a paciência chegou ao fim. Liliane conta que viu o filho “triste” e “chateado”. Ao questioná-lo, Talisson afirmou mais uma vez que estava com dor e havia sentido uma “fisgada” em um momento que abraçou a namorada. “Pedi para ele levantar o braço e eu passei a mão próximo ao peito. No que eu fiz isso, senti algo rasgando“, disse a mãe.
A mãe lembra que ao chegarem no hospital ela fez um desabafo com um novo médico, alegando estar “cansada” e “desesperada”. O doutor, então, analisou o Raio-x minuciosamente, levou o resultado para um outro médico, na intenção de obter uma segunda avaliação médica, e chegaram ao diagnóstico: havia um pedaço de vidro dentro do corpo de Talisson. O fragmento estava próximo a uma artéria do jovem e se movia no corpo do jovem conforme ele crescia.

“Eu não senti minhas pernas e comecei a chorar. Ele pediu para eu assinar o termo para realizar a cirurgia e autorizei. Meu filho ia crescer com isso e eu ia perder ele. O médico que fez o procedimento chegou a falar que se o Talisson fosse mais magro, [pedaço de vidro] tinha cortado a veia do coração e que ele nasceu de novo“, disse emocionada.
Apesar do “alívio” da retirada do pedaço de vidro, a sequela física e emocional, ainda permaneceu depois da aflição vivida durante os 11 anos. Talisson teve que iniciar um tratamento com psicólogo após o segundo procedimento. O braço esquerdo do rapaz ainda apresenta limitação na movimentação e ao carregar peso, em virtude de um mioma – um nódulo que surgiu em seu peito esquerdo por conta do fragmento esquecido.
Relembre outros casos de condenação por erro em cirurgia no DF:
Cirurgias malfeitas
Por conta de toda “frustração” e “indignação” com que Talisson sofreu, a mãe acionou o Distrito Federal na Justiça. O DF foi condenado a pagar R$ 40 mil à família, por canos morais, e mais R$ 10 mil, a título de danos estéticos.
De acordo com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), a permanência de fragmento de vidro no corpo do paciente por mais de uma década caracterizou deficiência do serviço de saúde.
Para o advogado Caio Henrique Nascimento, que defendeu a família no caso, houve um erro médico “muito grosseiro” que é não constatação do pedaço por meio do Raio-x e as negações em se realizar o exame de imagem.
“Isso é uma negligência médica alarmante. Durante o processo, o DF alegava que esse corpo estranho descoberto não era da primeira oportunidade que o Talisson foi ao hospital, como se fosse de um outro acidente. Mas o perito deixou bem claro e constatou a possibilidade daquele vidro ser de 2012″, destaca.
O advogado ressalta, ainda, que a entrada de Liliane com o processo é resultado de uma luta importante dos direitos em que a população do Distrito Federal deve ir atrás contra os “erros médicos”.
“Todo dia tem gente relatando erro médico, mas quantas mães e pessoas vão embora sem tentar averiguar essa situação e acaba aceitando a primeira fala do médico? Ainda bem que a Liliane foi atrás e identificou que tinha alguma coisa errada”, disse.
Caio ainda pontua que maioria dos erros acontece supostamente em razão da “pressa”. “Querem dar vazão mais rápido nos casos. E acaba que o atendimento e o acompanhamento e nas vezes é precário. Quando na verdade tinha que ser um atendimento mais zeloso”, conta.
O Metrópoles acionou a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) para comentar o ocorrido, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto para qualquer manifestação.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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