23/03/2026 06:00, atualizado 23/03/2026 06:00
Um gesto simples e cotidiano, que é esvaziar a bexiga de forma espontânea, simplesmente deixa de acontecer quando uma pessoa convive com retenção urinária crônica. Nesses casos, a urina permanece acumulada no organismo, o que pode favorecer infecções urinárias recorrentes, exigir uso frequente de antibióticos e, em situações mais graves, provocar danos renais.
O problema pode estar associado a diferentes causas, especialmente condições neurológicas como lesão medular, mielomeningocele e esclerose múltipla. Dados do Ministério da Saúde mostram que mais de 350 mil pessoas convivem com retenção urinária hoje no Brasil.
O tema se torna ainda mais delicado e necessário de ser debatido quando pesquisas mostram que usuários de cateterismo intermitente têm, em média, 3,5 infecções do trato urinário por ano, o que demonstra o impacto da condição quando o esvaziamento vesical não ocorre de forma adequada.
Como ocorre a retenção urinária
Segundo Marthyna de Mello, Medical Affairs Manager da Coloplast, a retenção urinária crônica ocorre quando há interrupção na comunicação entre o cérebro e o sistema urinário, algo comum em pessoas com lesão medular. Nesses casos, o organismo perde a capacidade de controlar adequadamente o esvaziamento da bexiga.
A especialista explica que o problema não está apenas na mobilidade, frequentemente associada à lesão medular, mas também no funcionamento do sistema urinário e intestinal.
Quando o esvaziamento não ocorre de forma completa, a urina residual permanece na bexiga, criando condições favoráveis para infecções e outras complicações.
“Se esse paciente não esvazia a urina adequadamente, ele sempre vai ter uma urina residual na bexiga. Com isso começam as infecções do trato urinário, o uso de antibiótico e um ciclo que pode evoluir até para dano renal.”
Marthyna de Mello, gerente de assuntos médicos da Coloplast
O cateterismo intermitente limpo é o método mais difundido no Brasil para o manejo da retenção urinária crônica. O procedimento consiste na introdução de um cateter na uretra para drenar a urina acumulada na bexiga, geralmente feito entre quatro e seis vezes ao dia.
Diferenças entre tecnologias disponíveis
No Brasil, o cateter mais utilizado ainda é o de PVC, que exige lubrificação manual antes da introdução, inclusive hoje é o disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Mas, segundo Marthyna, esse processo pode aumentar o risco de contaminação e causar atrito durante o procedimento.
Ela explica que tecnologias mais recentes, como o cateter hidrofílico, chegam prontos para uso, com lubrificação uniforme no próprio material, o que reduz etapas do procedimento e facilita a adesão ao tratamento, especialmente entre pessoas com limitações motoras nas mãos.
Pesquisas mais recentes têm comprovado que cateteres hidrofílicos podem reduzir significativamente complicações associadas ao procedimento, incluindo infecções urinárias, traumas uretrais e estenose uretral.
A experiência de quem convive com a condição
Para quem vive com retenção urinária crônica, o impacto vai além do aspecto clínico. A condição influencia diretamente a autonomia, a vida social e o trabalho.
Andrea Schwarz, usuária de cateter hidrofílico, embaixadora da Coloplast e palestrante, perdeu os movimentos das pernas aos 22 anos após uma má formação congênita da medula se manifestar de forma aguda. Desde então, passou a redescobrir o próprio corpo e a rotina diária.
Ela conta que, por muitos anos, a maior dificuldade não estava relacionada à mobilidade, mas à adaptação da função urinária. Antes de conhecer o cateterismo intermitente, enfrentou infecções urinárias frequentes e limitações na rotina.
Segundo Andrea, o uso do cateter hidrofílico trouxe mudanças significativas no dia a dia, permitindo maior independência e segurança.

“Isso me trouxe mais autonomia, mais saúde, mais praticidade, mais agilidade. Eu ganhei muito em qualidade de vida. Mudou a minha relação com o trabalho, com a minha vida pessoal, com os lugares que eu conseguia ir e para onde eu conseguia viajar.”
Andrea Schwarz, usuária de cateter hidrofílico, embaixadora da Coloplast e palestrante
Ela também defende que o tema ainda é cercado por tabus, apesar de se tratar de uma necessidade básica de saúde, e que falar abertamente ao público é um movimento que têm ajudado muitas pessoas a superarem as limitações.
Desafio do acesso no Brasil
Embora o cateter hidrofílico tenha sido incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) pela Portaria nº 37, de 24 de julho de 2019, a oferta ainda não é uniforme em todo o país.
A decisão do Ministério da Saúde estabeleceu a incorporação da tecnologia para o cateterismo vesical intermitente em pessoas com lesão medular e bexiga neurogênica.
No entanto, a consulta pública de nº 34, promovida pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em 2020, para definir o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da bexiga neurogênica ainda não resultou na publicação do documento, que é considerado essencial para padronizar o diagnóstico, o tratamento e os critérios de dispensação do dispositivo no sistema público de saúde.
Na prática, isso significa que a oferta do cateter hidrofílico ainda depende de iniciativas locais, decisões administrativas ou ações judiciais, tanto no SUS quanto na saúde suplementar.
Segundo Gilberto Koehler, gerente de Relações Institucionais, Governamentais e Grupos de Defesa de Pacientes da Coloplast, a ausência desse protocolo nacional dificulta a implementação uniforme da tecnologia.
“Essa não é uma tecnologia que vai encarecer os custos da saúde, muito pelo contrário. Apesar do custo inicial mais alto do que o cateter convencional, ela traz economia para o sistema de saúde porque evita internações.”
Gilberto Koehler, gerente de Relações Institucionais, Governamentais e grupos de defesa de pacientes da Coloplast
A padronização da dispensação desses dispositivos é considerada fundamental para garantir que os usuários tenham acesso contínuo ao tratamento e consigam manter o esvaziamento adequado da bexiga.
Segundo Koehler, a empresa tem atuado junto a instituições públicas e organizações da sociedade civil para contribuir com a regulamentação dos protocolos clínicos e ampliar o acesso à tecnologia já incorporada ao sistema de saúde.
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Referências:
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de Atenção à Pessoa com Lesão Medular. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
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FURLAN, J. M. Lesão medular: conceitos básicos. Jornal Brasileiro de Neurocirurgia, 2001.
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COLOPLAST. IC User Survey. 2016.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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