Sob(re) a terra: doença fatal e pouco conhecida avança no Brasil

Antônio recebeu diagnósticos de Doença de Addison, câncer de rim e câncer de próstata – todos relacionados à paracoccidioidomicose (PCM). Nenhum dos tratamentos propostos surtia efeito e, a cada dia, ele sentia o corpo se deteriorar um pouco mais. Apenas no fim de 2024, uma biópsia realizada em um caroço retirado do testículo revelou que o técnico agrícola tinha paracoccidioidomicose.

Micose é um termo genérico para designar infecções causadas por fungos. Nesse caso, o patógeno é o Paracoccidioides, popularmente conhecido como paracoco. Diferentemente da maioria das micoses, que se manifestam na pele e são tratadas de maneira tópica, a paracoccidioidomicose se desenvolve no pulmão, após o fungo ser aspirado, e pode custar a vida do paciente. A paracoccidioidomicose é a micose sistêmica que mais mata no Brasil.

A infecção é chamada sistêmica porque, a partir do pulmão, dissemina-se para gânglios, mucosas, cérebro, ossos e órgãos genitais – quanto mais tempo sem diagnóstico, maior é o estrago provocado pelo fungo.

O Paracoccidioides sobrevive no solo e é invisível a olho nu. O contágio ocorre quando a terra é revolvida: o paracoco fica suspenso no ar e, então, é inalado. Não se sabe em que profundidade o fungo está, mas o habitat dele não é superficial. Por suas características de transmissão, a paracoccidioidomicose atinge, sobretudo, quem trabalha em contato direto com a terra, como agricultores, garimpeiros e trabalhadores da construção civil.

O Brasil é o país com a maior incidência de infecções por Paracoccidioides no mundo: são cerca de quatro casos por ano para cada grupo de 100 mil habitantes. A taxa de mortalidade é de 1,5 para cada 1 milhão. A comunidade científica acredita, no entanto, que o alcance é muito maior, uma vez que a PCM não está na Lista Nacional de Notificação Compulsória, do Ministério da Saúde.

É uma micose sistêmica grave que provoca sintomas na pele, nas mucosas e em órgãos internos, como pulmões. Atinge mais os homens do que as mulheres. Para cada 15 homens com a doença, apenas uma mulher é afetada. Ela é causada por um fungo conhecido como “paracoco”.

A paracoccidioidomicose é transmitida pela inalação de esporos do fungo presentes na poeira e no solo. A inalação ocorre durante atividades que envolvem o manejo de solo contaminado, como agricultura, jardinagem e terraplenagem. Não há transmissão direta de pessoa para pessoa nem de animais para humanos.

Não existe comprovação científica, mas o fungo já foi encontrado principalmente em tocas de tatus.

O fungo também é encontrado na Argentina, Colômbia, Venezuela, Bolívia, no Equador, Peru, Paraguai, México, em Honduras e na Guatemala. Nesses países, a PCM tampouco é uma doença de notificação compulsória.

A não exigência de notificação oficial ao Ministério da Saúde faz com que o acompanhamento da paracoccidioidomicose seja incompleto e, em consequência, as políticas públicas para preveni-la e tratá-la sejam falhas.

Falta informação sobre a doença até para os médicos, por isso, Antônio demorou tanto para obter o seu diagnóstico.

Por meio da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), o Metrópoles descobriu que, de 2017 para cá, pacientes com a infecção sistêmica já foram registrados em praticamente todo o país, exceto no Amapá.

Entre janeiro de 2017 e agosto de 2025, o sistema público de saúde anotou ao menos 2.424 internações por paracoccidioidomicose. Até 2017, 80% dos casos se concentravam nos estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Rondônia. A maioria dos óbitos, por sua vez, ocorria nas regiões Sul e Centro-Oeste.

Hoje, esse mapa já não é o mesmo. Dados recentes indicam que a PCM deixou de ser um agravo restrito aos focos clássicos e passou a aparecer de forma mais ampla no território nacional. Entre 2017 e 2025, 26 estados e o Distrito Federal registraram ao menos uma internação pela doença, evidenciando uma dispersão geográfica inédita.

A mortalidade também deixou de se limitar às regiões historicamente mais afetadas. Além de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás, óbitos por PCM foram registrados, entre 2017 e 2025, em estados do Sudeste, Norte e Nordeste, como Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Bahia, Maranhão, Piauí e Paraíba.

Das 27 unidades da Federação, apenas sete realizam testes para diagnosticar a paracoccidioidomicose: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Além de dificultar o diagnóstico, a falta de testagem atrapalha o tratamento, fazendo com que os pacientes cheguem aos hospitais em estado grave. Professor da disciplina de Infectologia do Hospital Universitário Júlio Müller (MT), Luciano Corrêa Ribeiro conta que os pacientes costumam buscar ajuda quando a infecção já está avançada.

A recente adoção da notificação compulsória em São Paulo, em abril de 2024, e no Rio de Janeiro, em julho de 2025, trouxe à luz um volume de casos muito maior do que se imaginava.

Em São Paulo, apenas entre janeiro e outubro deste ano, foram registrados 118 casos de paracoccidioidomicose, o que supera – e muito – os 70 casos contabilizados em todo o ano de 2024.

A doença também segue associada a mortes no estado: de janeiro a setembro de 2025, foram registrados 13 óbitos por PCM, número próximo aos 14 óbitos contabilizados ao longo de todo o ano de 2024.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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