Observando os últimos movimentos da política acreana, se pode afirmar que o jogo de 2026 promete ser bem animado. Contando com o candidato da esquerda que até aqui mostrou-se irrelevante, teremos quatro candidatos em busca do eleitorado – Mailza Assis, Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas.
Depois de ser cozido em banho maria durante meses, o prefeito da capital, Tião Bocalom, teve a triste notícia de que seu partido, o PL, embora reconhecendo seu bolsonarismo extremado, não endossaria sua candidatura e a porta, como sempre acontece nesses casos, é a serventia da casa. Para o PL, em primeiro vem a reeleição do senador Marcio Bittar, justificada, digo eu, e que, portanto, qualquer sacrifício seria feito com esse objetivo, inclusive o de dispensar a disputa ao governo do Acre.
Já explicamos em outra ocasião que para o PL e o Flávio Bolsonaro, na perspectiva de ocupar a presidência da república, o mais importante é ter a maioria no Senado e, neste sentido, a reeleição do Márcio Bittar é imprescindível (um senador a mais pode definir o partido que elege o presidente do Congresso), ainda mais, sendo Márcio Bittar um dos homens mais próximos aos Bolsonaro, portanto, digno de confiança e comprometimento de quem se posiciona à direita no espectro político. A viabilidade de um governo do Flávio Bolsonaro dependerá, em grande medida, da composição do Senado, logo, da eleição de senadores aliados no PL. Fácil de entender.
Voltemos. Em certa medida, Bocalom reagiu como a eterna Maysa Matarazzo em sua música Meu Mundo Caiu. Começando com “meu mundo caiu” ela termina com “…Se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”. A solução encontrada pelo prefeito de Rio Branco para viabilizar sua candidatura (obter uma sigla) foi um tanto vexatória, na base do “quem me dá duas ou três letras?”. Achou quatro, o PSDB, que de direita não tem absolutamente nada, e aceitou, pelo menos momentaneamente, o papel de candidatura tutelada, pasmem, pelo adversário palaciano. Não importa, Maysa não falou nada sobre como se levantar.
Digo tutelada porque, para os interlocutores do palácio, que trabalharam para que o Bocalom não ficasse descamisado, trata-se apenas de uma estratégia. “Com ele tem segundo turno e, então, ele nos apoia” ouvimos do sincero governador. A candidatura tucana, viabilizada no escaninho das siglas em Brasília, aparece então como acessória da candidatura de Mailza Assis.
Para justificar a nova sigla, Bocalom lembra seu passado nas hostes tucanas, já que por lá foi candidato várias vezes. Aqui tem outro “porém”. Convenhamos, o PSDB tem nojo dos Bolsonaro a quem o prefeito ama. Tucanos de alta plumagem como Tasso Jereissati se referem a Bolsonaro assim: “Um governo inepto, autoritário e negacionista, que faz apologia à ditadura e coloca em risco a democracia brasileira.” É fácil verificar de que lado o PSDB se põe.
Conforme os dados de votação do Congresso, os 13 deputados do PSDB são mais fiéis ao governo Lula do que o chamado centrão com ministro e tudo o mais, e está no mesmo bloco parlamentar que sustenta o governo. Jamais algum deles foi ao menos fazer uma visita aos presos do 8 de janeiro. Enfim, os tucanos só divergem do PT em votações simbólicas ou de visibilidade midiática. Não é à toa que o pai de todos eles, o Fernando Henrique Cardoso, rejubilou-se ao entregar a faixa presidencial ao Lula da Silva. No fundo, tem o mesmo DNA frankfurtiano.
Alguém já disse que o tucanato sempre foi o PT de blazer e sapatênis, isso quando o PT usava macacão de fábrica e botinas. Aécio Neves, que abonou a ficha do Bocalom em Brasília lhe entregando as chaves do PSDB no Acre, disse certa vez em entrevista ao jornal O Globo: “Para a direita não adianta me empurrar que eu não vou”.Para Bocalom, que até ontem disputava o podium da corrida de quem é mais de direita, o ninho tucano não deixa de ser desconfortável.
Nesse imbróglio exposto nos últimos dias, reconheçamos a habilidade do governo, que pode se dar ao luxo de ter na campanha, além da própria candidatura, outra com cheiro fake em seu plano estratégico. Imagina o que estão pensando os apoiadores do prefeito, entrando nesse jogo viciado, sabendo de antemão que a peça encenada lhes reserva o papel de figurantes, que são escada para o protagonista conforme o próprio. À primeira vista, até parece que são apenas duas candidaturas de vera: uma com escada – a da vice-governadora Mailza Assis e, outra, sem escada – a do senador Alan Rick.
Mas, peraí, escriba! Se o Bocalom pelo meio do caminho conseguir se levantar como poetizou Maysa, e vencer a Mailza? Pode? Pode sim. Em política até vaca voa enquanto se abana. Vai que a dona Mailza Assis não consegue mesmo empolgar (é o que vem acontecendo) e o Bocalom chega à frente? Certamente, é nisso que o prefeito aposta. Ele está suportando a humilhação com a ideia fixa e a promessa entalada na garganta: “VOCÊS VÃO VER!”. Para ele, a virada de jogo é certa, e vai cobrar a fatura com senadores e deputados todos eleitos.
Curioso que a candidata e o governador tenham dito em entrevista que Bocalom “não é nosso adversário”. Como não? Se não é, como pensam em ir para o segundo turno enfrentar o Alan Rick? Só vão passando por cima do prefeito, ora. O mesmo raciocínio vale para o Bocalom. Ou ambos pensam em fazer uma campanha abraçados, apenas um torcendo para o outro se lascar? Isso non ecxiste, diria o Padre Quevedo.
Sabem os mais experientes que essa história de amiguinhos não vale um real. A propaganda eleitoral, os interesses em disputa, os apoiadores nos municípios e nos bairros, os debates, os cargos e tudo o mais, são divisivos. Disputas dessa espécie não admitem sentimento olímpico, então, onde o governo puder trucidar o Bocalom, vai fazê-lo, de onde puder tirar seu prestígio, vai tirar. Assim fará também o Bocalom em relação à Mailza. Vale dizer, na fase de primeiro turno, o adversário imediato da Mailza é Bocalom e vice-versa, embora digam que “não são adversários”.
Um dado interessante em toda essa estratégia confessada pelos marqueteiros e conselheiros do Governador Gladson, é o reconhecimento tácito de que o último adversário será o senador Alan Rick, que estaria com assento marcado no segundo turno (concordo com isso). O candidato do PR, pelo menos até aqui, sem quaisquer favores governamentais, tem feito um percurso notável, constando em todas as pesquisas (mesmo as pagas pelos adversários) como favorito.
Certo é que, pelos cálculos da turma do poder instalado, no segundo turno, se houver, todos se juntarão para a batalha final contra Alan Rick. O problema, como sempre acontece com as articulações de bastidores, é o eleitor, que costuma não endossar acordos de gabinetes.
PS: Em homenagem à Maysa: “Os olhos de Maysa são dois não sei quê, dois não sei como diga, dois oceanos não-pacíficos.” – Manuel Bandeira
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, “Arquipélago do Breve”, encontra-se à venda através de suas redes sociais e do e-mail valbcampelo@gmail.com.
Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

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