Ter coragem de defender suas convicções (por Pedro Costa)

Ricardo Stuckert
2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado, São Paulo -- Metrópoles

John Kennedy escreveu um livro que marcou seu tempo: Profiles in Courage. Ele tratava de senadores que haviam colocado suas convicções — independente de seu mérito — acima das contingências e conveniências políticas. Começava por John Quincy Adams, advogado, diplomata, professor em Harvard e Brown, senador, presidente da República, deputado. Menino, vira seu pai, John Adams, impor Thomas Jefferson como redator da Declaração de Independência. Tornara-se homem sob o duplo patrocínio dos Fundadores — mais tarde, quando foi eleito presidente, John Adams escreveu a Jefferson: “é seu filho tanto quanto meu”. Representara Washington na Holanda, Adams na Prússia; mais tarde representaria Madison na Rússia e no Reino Unido.

O episódio que Kennedy destaca se deu quando John Quincy era senador por Massachussets. Fora eleito pela oposição. Os federalistas reuniam de Adams a Hamilton (os dois se detestavam) no combate a Jefferson, então presidente. Ataques ingleses levaram ao embargo dos produtos britânicos, o que significava parar grande parte dos negócios da Nova Inglaterra. John Quincy, em vez de defender suportar as provocações inglesas — mais ou menos como se defende hoje baixar a cabeça para Trump, — apoiou Jefferson. O mundo veio abaixo: era um traidor, um monstro. Em Boston passou a ser uma dessas figuras que se muda de calçada para não cumprimentar. Não mudou de posição, mas, quando anteciparam em meses a eleição de seu sucessor, renunciou a seu mandato.

“— Nunca serei governado em minha conduta pública por qualquer consideração que não seja a de meu dever.” “O interesse privado não pode ser colocado em oposição ao bem público.”

John Quincy Adams voltou para a diplomacia, até que Monroe o fez Secretário de Estado. Era a posição que tinha levado à Presidência Jefferson, Madison e o próprio Monroe. Foi quem encaminhou o reconhecimento de nossa independência e o principal criador da Doutrina Monroe. Presidente, sua visão de uma política apartidária e a recusa de usar o governo para influir na eleição fizeram com que não fosse reeleito. Aceitou com humildade sua aclamação como deputado e serviu na Câmara, literalmente, até a morte. Em seus últimos anos foi o “Old Man Eloquent”, a demolidora voz contra a escravatura. Nunca cedeu em seus princípios.

No fim da vida dissera a um grupo de libertos que “o dia da redenção chegará; não sabemos se virá em paz ou em sangue”. A um deputado que lhe dizia que a abolição poderia custar o sangue de milhares de brancos, respondeu: “Virá, mesmo que custe o sangue de milhões de homens brancos. Que justiça seja feita, mesmo que caia o Céu!” Treze anos depois veio a Guerra Civil, que teve um milhão de mortos.

O desafio do próprio Kennedy na defesa dos direitos civis, se não foi a causa de sua morte — havia alguém por detrás de Oswald? — criou o clima de ódio que havia em Dallas no 23 de novembro de 1963.

Nós também tivemos nossa dose de políticos a quem custou alto preço a coragem de navegar contra a corrente. Os grandes Andrada pagaram com o exílio a ideia de uma monarquia democrática e o combate à escravidão. Nabuco de Araújo, ao refundar o Partido Liberal com “reforma ou revolução”, afastou a possibilidade de ser presidente de Conselho. Prudente de Moraes enfrentou pacificamente os florianistas até depois do atentado que levou à morte do Marechal Bittencourt. Virgílio de Mello Franco derrubou dois regimes em defesa da democracia e por isso perdeu a vida. Adauto Lúcio Cardoso como presidente da Câmara dos Deputados resistiu até fisicamente à cassação de mandatos e como ministro do Supremo recusou a censura prévia e, após seu voto ser vencido pelo de todos os outros ministros, deixou a toga na cadeira na renúncia absoluta. Lula enfrentou o desafio de subir de operário a presidente e o da prisão por um crime que não existiu. Alexandre de Moraes arriscou a vida para defender a democracia. E até entre os militares, apesar de raros, temos exemplos, como Saldanha da Gama, que, traído para entregar os marinheiros a quem Floriano prometia uma falsa anistia, morreu tentando resgatar a jovem república.

Agora o Brasil precisa novamente de quem tenha a coragem de suas convicções. Nessa maré de pacificação em que se prega diariamente a aceitação dos que continuam conspirando contra a democracia e se fala alto nos bons costumes enquanto se pratica o linchamento físico e o linchamento moral, onde a lei é quando muito relativa e quando menos completamente ignorada, precisamos de homens de convicção. Precisamos, sobretudo, de um nome para suceder a Lula.

O Presidente tem mantido seus princípios e levado o Brasil a defender os princípios estabelecidos na Constituição e na Carta das Nações Unidas: os direitos da pessoa humana, a soberania, a autodeterminação dos povos. Tem defendido corajosamente a troca das despesas em armas pelo fim da fome. Tem cedido muito, mas nas circunstâncias atuais é preciso aceitar que tem que negociar com os inescrupulosos que tomaram conta de grande parte da política brasileira.

Penso em 2030. Pois posso estar errado, mas creio que as candidaturas do Flávio Rachadinha — ele não quer que se use o nome do pai, bolsonaro, embora invoque o nome do Pai em vão — ou dos policandidatos do Kassab — que cristaliza o oportunismo e a falta de convicções — serão derrotadas nestas eleições que já já estão chegando.

Quando vier 2030 precisaremos de quem tenha coragem. Quem lembre que o papel do líder político é conduzir a opinião, não ser conduzido por ela. Não despertar paixões inexprimíveis, mas convencer pela razão.  Ao líder cabe formular os grandes princípios da política: a justiça social, a velha trilogia revolucionária “liberdade, igualdade, fraternidade”. Que as pessoas possam se preocupar em ser e não em ter.

É querer muito? Não, a descrença na política, os graves problemas por que passamos se devem a que poucos pensem no bem público, em vez de no interesse privado. Mas esses raros existem e o Brasil precisa deles.

 

Pedro Costa é arquiteto e escritor.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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