
Um estudo recente revelou que pessoas com diabetes tipo 2 sofrem danos físicos no coração que podem ser maiores do que se conhecia. A medicina já sabia que as alterações dos níveis de glicose podiam danificar pequenos vasos cardíacos, mas os danos podem chegar até a formar cicatrizes na musculatura cardíaca, segundo um estudo feito na Universidade de Sydney, na Austrália.
Pesquisadores analisaram tecido do miocárdio ventricular esquerdo obtido antes da morte de pacientes. A comparação de pessoas com e sem diabetes tipo 2 revelou que a doença remodela fisicamente o órgão, enfraquecendo a estrutura muscular e desencadeia o acúmulo de tecido fibroso e rígido, o que dificulta o bombeamento de sangue.
Segundo a pesquisa, publicada em setembro na revista EMBO Molecular Medicine, essas alterações são especialmente graves em pessoas com doença cardíaca isquêmica, a causa mais comum de insuficiência cardíaca.
Como a diabetes afeta o coração?
Os resultados indicaram uma assinatura molecular específica quando a cardiomiopatia isquêmica ocorre junto com diabetes. Proteínas ligadas ao transporte e à oxidação de ácidos graxos apresentaram redução mais acentuada nesse grupo em relação aos doadores saudáveis. A análise também revelou diminuição na expressão de acilcarnitinas, perilipina e proteínas, sugerindo deficiências importantes na capacidade do coração de metabolizar a gordura.
Além das mudanças metabólicas, pesquisadores observaram alterações mais intensas, como um maior grau de miofibrose, a formação de tecido cicatricial no coração. O conjunto de dados indica que a diabetes não atua apenas como condição paralela, mas interfere diretamente nos mecanismos que sustentam a função cardíaca ao longo do tempo.
“Há muito tempo observamos uma correlação entre doenças cardíacas e diabetes tipo 2, mas esta é a primeira pesquisa a analisar conjuntamente diabetes e doença cardíaca isquêmica e a descobrir um perfil molecular único em pessoas com ambas as condições”, afirmou o médico Benjamin Hunter, um dos líderes do estudo.
Dano ocorre até nas células cardíacas
Segundo Hunter, o impacto metabólico da diabetes no coração humano ainda não é totalmente compreendido, já que em condições saudáveis, o coração gera energia principalmente a partir de gorduras, com participação adicional de glicose e corpos cetônicos. Entender que a diabetes prejudica o funcionamento desta cadeia ajuda a compreender a correlação já antiga da doença com a insuficiência cardíaca.
“Observamos que a diabetes agrava as características moleculares da insuficiência cardíaca em pacientes com doença cardíaca avançada e aumenta o estresse nas mitocôndrias — as usinas de energia da célula. O aumento do estresse mitocondrial reduz eficiência energética e favorece dano celular progressivo”, completa o líder do estudo.
O professor Sean Lal, também coordenador do estudo, afirma que o outro lado da moeda da identificação de disfunção mitocondrial e de vias ligadas à fibrose pela diabetes é a abertura de novas possibilidades terapêuticas para reduzir danos da doença ao coração.
“Agora que conseguimos estabelecer uma ligação entre diabetes e doenças cardíacas em nível molecular e observar como isso altera a produção de energia no coração — além de modificar sua estrutura — podemos começar a explorar novas vias de tratamento, orientar critérios de diagnóstico e melhorar o atendimento a milhões de pacientes”, defendeu.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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