
De solução milagrosa para a libido feminina à promessa de mais energia, disposição e performance masculina, a testosterona passou a ocupar um lugar de destaque nas conversas sobre saúde e bem-estar.
Nos últimos anos, o hormônio ganhou ainda mais visibilidade com a popularização de protocolos hormonais divulgados nas redes sociais e em clínicas de medicina estética, muitas vezes apresentados como um “atalho” para tratar cansaço, envelhecimento ou falta de desejo sexual.
A ciência, no entanto, mostra que a realidade é bem mais complexa. Estudos indicam que cerca de 49% das mulheres relatam algum tipo de disfunção sexual ao longo da vida, sendo o desejo hipoativo a queixa mais comum.
Entre os homens, o cenário também preocupa: pesquisas mostram que até 45% dos pacientes com obesidade apresentam queda significativa da testosterona, condição que pode afetar a fertilidade, a massa muscular, a disposição e até o risco cardiovascular.
“É comum ouvir no consultório perguntas como ‘minha libido sumiu, será que preciso usar testosterona?’. A questão é que a sexualidade humana é complexa demais para caber em uma prescrição simplificada”, explica o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Segundo o especialista, a testosterona se tornou um dos hormônios mais debatidos da atualidade justamente por estar cercada de promessas exageradas e interpretações simplificadas sobre seu papel no organismo.

Testosterona e desejo feminino
Apesar de frequentemente associada à libido feminina, a testosterona não é o principal hormônio que regula o funcionamento hormonal das mulheres. Durante a vida reprodutiva, quem comanda os ciclos hormonais são o estrógeno e a progesterona.
“A testosterona existe no organismo feminino, mas em quantidades muito menores. Curiosamente, muitas mulheres que relatam queda no desejo sexual após os 35 anos têm vários fatores associados ao problema e nenhuma correlação com os níveis do hormônio”, explica Marcelino.
Isso acontece porque o desejo sexual feminino é influenciado por diversos elementos ao mesmo tempo. Qualidade do sono, estresse, saúde mental, autoestima, rotina intensa e até a dinâmica do relacionamento podem interferir diretamente na libido.
“Uma mulher estressada, sobrecarregada ou vivendo um relacionamento ruim dificilmente sentirá desejo, e não há testosterona que resolva isso”, afirma o endocrinologista.
Desejo sexual não funciona da mesma forma para todas
Outro ponto frequentemente mal interpretado é a forma como o desejo feminino se manifesta. Diferentemente da ideia difundida culturalmente de que o desejo surge de forma espontânea, muitas mulheres experimentam uma libido chamada de “reativa”.
Isso significa que a vontade pode surgir a partir do estímulo, da intimidade ou do contato físico, e não necessariamente aparecer “do nada”.
“É fundamental desmistificar a ideia de que apenas o desejo espontâneo representa uma sexualidade saudável. A resposta reativa também é completamente normal”, explica Marcelino.
Além disso, especialistas lembram que nem sempre a ausência de desejo deve ser encarada como um problema médico.
Pesquisas publicadas no Journal of Sex Research indicam que cerca de 1% das mulheres se identificam como assexuadas e não apresentam sofrimento em relação a isso. Nesses casos, impor tratamentos hormonais pode ser considerado uma forma de medicalização indevida da sexualidade.

Obesidade e queda hormonal nos homens
Nos homens, um dos fatores mais associados à queda da testosterona é o excesso de peso. A obesidade pode provocar uma condição conhecida como MOSH (sigla em inglês para hipogonadismo secundário associado à obesidade).
Nesse quadro, o aumento da gordura corporal favorece a conversão da testosterona em estrogênio, reduzindo a produção natural do hormônio.
“O impacto vai muito além da libido. A queda hormonal pode afetar a fertilidade, a massa muscular, a disposição, o metabolismo e até aumentar o risco de doenças cardiovasculares”, explica o endocrinologista.
Apesar disso, a reposição hormonal nem sempre é a primeira ou a melhor solução.
Estudos mostram que a perda de aproximadamente 15% do peso corporal pode normalizar a produção de testosterona em muitos homens, especialmente quando a queda hormonal está relacionada à obesidade.
“Repor testosterona sem tratar a causa do problema não resolve a situação. Muitas vezes, o hormônio funciona mais como um marcador de saúde metabólica do que como um remédio universal”, afirma Marcelino.

Riscos do uso indiscriminado
O crescimento do uso de testosterona fora das indicações médicas tem preocupado especialistas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o uso do hormônio aumentou mais de 300% entre 2001 e 2013, muitas vezes sem diagnóstico confirmado de deficiência hormonal.
Quando utilizada sem acompanhamento médico adequado, a reposição pode trazer riscos importantes à saúde.
Nos homens, o uso inadequado pode provocar infertilidade, redução da produção natural de espermatozoides, alterações cardiovasculares e aumento do hematócrito — condição que deixa o sangue mais espesso e pode favorecer eventos cardíacos em pacientes de risco.
Nas mulheres, doses elevadas podem provocar efeitos colaterais como acne, aumento de pelos corporais, queda de cabelo, alteração da voz e irregularidade menstrual. Em alguns casos, essas mudanças podem ser permanentes.


Quando a reposição é indicada
Apesar das controvérsias, a reposição de testosterona pode ser segura quando bem indicada e realizada com acompanhamento médico rigoroso.
Diretrizes internacionais recomendam que o tratamento seja considerado apenas quando existem sintomas compatíveis com deficiência hormonal associados a níveis comprovadamente baixos do hormônio em exames laboratoriais repetidos.
Mesmo nesses casos, o acompanhamento é fundamental para monitorar possíveis efeitos metabólicos, cardiovasculares e hematológicos ao longo do tratamento.
“A prescrição ética exige escuta ativa, empatia e investigação cuidadosa. Só depois de descartar outras causas é que a reposição pode ser cogitada, e sempre com cautela”, conclui Marcelino.
No fim das contas, a testosterona está longe de ser um “hormônio milagroso”. Mais do que uma solução rápida para problemas complexos, ela funciona como um indicador importante do equilíbrio geral do organismo — que depende de fatores como estilo de vida, saúde mental, alimentação e qualidade do sono.
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Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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