Vereador que se diz católico desviou verba da “Corrida Bom Jesus"

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Vereador Chico 2000

O vereador Francisco Carlos Silveira, que é conhecido como Chico 2000, foi afastado do cargo após se tornar alvo da Operação Gorjeta, deflagrada pela Polícia Civil para investigar o desvio de cerca de R$ 3,5 milhões em Cuiabá (MT). Entre os recursos públicos analisados estão valores destinados à 36ª edição da Corrida do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, realizada em abril de 2025.

No site oficial da Câmara consta que o parlamentar é filiado ao Partido Liberal (PL). O diretório estadual da sigla, por sua vez, afirma que Chico 2000 deixou os quadros da legenda no ano passado após suspeitas de ilegalidades.

De acordo com a decisão judicial obtida pela coluna, o evento esportivo-religioso teria sido utilizado como instrumento para a prática de irregularidades a partir do uso de uma emenda parlamentar de R$ 600 mil apresentada pelo vereador. Oficialmente, o dinheiro foi destinado ao Instituto Brasil Central (Ibrace) para a realização da corrida. As investigações, no entanto, indicam que a instituição atuou apenas como intermediária.

O Instituto Brasil Central (Ibrace), presidido por Alex Jony Silva, é uma associação privada sem fins lucrativos, fundada em 2021 e sediada em Cuiabá. A entidade diz atuar na “promoção da cidadania, da inclusão social e do fortalecimento comunitário, com foco em ações sociais, esportivas, culturais e educacionais”.

A Polícia Civil apurou que, pouco após o recebimento dos recursos pela Ibrace, cerca de R$ 580 mil foram repassados à empresa Sem Limite Esporte e Eventos, controlada por João Nery Chiroli. A proximidade entre o empresário e Chico 2000 ficou evidente em mensagens de WhatsApp obtidas pela perícia, nas quais, meses antes da formalização dos contratos, discutiam a organização das corridas.

O inquérito aponta que a Chiroli Esportes era a verdadeira responsável pela realização das provas esportivas, enquanto seu proprietário atuava informalmente como representante do Ibrace.

Saques fracionados em dinheiro

Relatórios financeiros apresentados também chamaram a atenção dos investigadores. Os documentos apontam a realização de saques fracionados em dinheiro, transferências para dirigentes do instituto, como uma de R$ 20 mil via Pix que estaria ligada a despesas pessoais do vereador. Outro indício de irregularidade é que o repasse ocorreu no dia seguinte ao recebimento dos recursos pela empresa contratada.

A decisão judicial lista ainda uma série de problemas formais na execução do convênio, como o início das inscrições para a corrida antes do fechamento de contratos, a utilização de atestados de capacidade técnica considerados irregulares e um documento assinado pelo próprio vereador, o que é vedado pelas normas administrativas.

Chico 2000 se define publicamente como católico apostólico romano. A Corrida do Senhor Bom Jesus é um evento religioso tradicional de Cuiabá e reúne milhares de participantes todos os anos, integrando o calendário oficial da cidade.

Em 2024, o vereador, então filiado ao PL, entregou a medalha da Ordem do Mérito Legislativo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, seu correligionário, em honraria concedida pela Câmara Municipal de Cuiabá.

Eventos esportivos sob investigação

Segundo a Polícia Civil, os recursos públicos repassados ao Ibrace foram utilizados, em sua maioria, para a realização de eventos esportivos, especialmente corridas de rua, por meio de Termos de Fomento firmados com a Secretaria Municipal de Esportes. Além da Corrida do Senhor Bom Jesus, também é citada a Corrida do Legislativo Cuiabano, entre outros eventos organizados nos últimos anos.

No total, a Justiça autorizou o cumprimento de 75 ordens judiciais, incluindo 12 mandados de busca e apreensão e 12 autorizações de acesso a dados armazenados em celulares e outros dispositivos eletrônicos. Além do vereador, foram alvos da operação servidores públicos, empresários, o presidente do Ibrace, assessores parlamentares e o proprietário da empresa investigada. A decisão também autorizou o afastamento de cargos e a exoneração de servidores da Câmara Municipal envolvidos no caso.

O juiz responsável pela investigação negou os pedidos de prisão preventiva contra Chico 2000 e outros investigados. Em substituição, determinou o afastamento cautelar do mandato e o bloqueio de bens, enquanto as diligências continuam e novas etapas da apuração são realizadas. A defesa do vereador ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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