
Uma das vítimas do acidente com o Césio-137, em Goiânia, Odesson Alves Ferreira criticou a forma como a minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, retrata o episódio ocorrido em 1987. Ativista pelos direitos dos radioacidentados da tragédia, ele aponta distorções na narrativa e cobra maior respeito à memória das vítimas e sobreviventes.
“A deturpação dos fatos históricos não foi apenas um erro de narrativa, considero um desrespeito profundo com a memória das vítimas e de nós que sobrevivemos, mas que muitas vezes morremos devido ao acontecimento. Quando se alteraram o fato histórico trágico por conveniência, para tornar a trama mais científica e comercial, cometeram um crime contra a verdade. A história real que vivemos não precisa de floreamentos sensacionalistas, ela foi trágica por si só”, disse em mensagem enviada ao Metrópoles.
Memórias radioativas
A história real completa do acidente com Césio-137 é contada na série de reportagens especiais do Metrópoles “Memórias radioativas”. Confira:
Irmão de Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho onde a cápsula com o material radioativo foi aberta, Odesson também afirma que a forma como a história vem sendo apresentada pode gerar interpretações equivocadas.
Segundo ele, versões distorcidas podem levar à construção de uma memória coletiva baseada em informações imprecisas, com impacto direto na imagem das pessoas envolvidas no episódio.
“Transformaram vítimas de um sistema irresponsável, em vilões, minimizaram a tragédia para gerar audiência. A negligência na pesquisa, e a falta de compromisso com fontes verdadeiras e a preguiça intelectual de quem conta essa história, demonstram um descaso inaceitável. O resultado? Uma falsa memória coletiva. A verdade histórica importa sim. A memória precisa ser protegida. Não vamos aceitar passivamente que a história seja reescrita por conveniência, pois quem ignora o passado da forma como ele realmente foi, está condenado a repetir seus erros”, afirma Odesson.
Vítimas não foram consultadas e gravações ocorreram fora de Goiânia
A minissérie, lançada em 18 de março, conta a história da tragédia pela perspectiva dos profissionais de saúde e ciência que atuaram para identificar a contaminação e conter a disseminação do material radioativo. Apesar de ser apresentada como uma obra ficcional baseada em fatos reais, a produção tem sido alvo de críticas de sobreviventes e de entidades culturais de Goiânia.
Entre os principais pontos levantados está a ausência de diálogo com as vítimas durante o desenvolvimento do projeto. De acordo com a Associação das Vítimas do Césio-137, integrantes não foram consultados para contribuir com o roteiro ou relatar experiências vividas durante o acidente.
O presidente da entidade, Marcelo Santos Neves, afirma que a falta de escuta pode resultar em versões incompletas da história.
“Não fomos ouvidos para a gravação da série, que é baseada na nossa história. As gravações nem aconteceram em Goiânia, foram feitas em São Paulo. Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?”, questiona.
Ele também destaca que a maior parte das gravações não foi realizada em Goiânia, mas em cidades do interior de São Paulo. A decisão também foi criticada pelo Conselho Municipal de Cultura da capital goiana, que considera o episódio parte da memória coletiva local e defende que a história deveria ser retratada no cenário original.
“Trazer a filmagem para cá não seria apenas fazer justiça à nossa história, mas também gerar empregos, movimentar a economia local e fortalecer a cultura brasileira com mais verdade e representatividade”, critica o conselho.
O que diz a Netflix
Em nota enviada ao Metrópoles, a Netflix afirmou que buscou garantir rigor histórico na produção da minissérie “Emergência Radioativa”. Segundo a plataforma, a equipe responsável pelo projeto consultou especialistas de diferentes áreas durante o desenvolvimento do roteiro, entre eles médicos e físicos que participaram diretamente do enfrentamento ao acidente radiológico de 1987.
Ainda de acordo com a empresa, também foram ouvidas pessoas que vivenciaram a tragédia de perto e que contribuíram com relatos utilizados na construção dramática dos personagens apresentados na série.
Sobre as críticas relacionadas às locações das gravações, o diretor da produção, Fernando Coimbra, afirmou que a escolha por filmar parte das cenas fora de Goiânia esteve ligada à necessidade de recriar a aparência da cidade no fim da década de 1980.
Segundo ele, a capital goiana passou por mudanças urbanísticas significativas nas últimas décadas, o que dificultaria encontrar cenários que reproduzissem com fidelidade o ambiente da época.
“Eram muitos os desafios, e um dos principais foi como reconstruir a Goiânia de 1987. Na época, era uma capital ainda jovem, com forte influência do ambiente rural ao redor. Os locais onde viviam essas pessoas tinham casinhas com muros baixos e ruas de terra”, explicou.
Por esse motivo, parte das cenas foi gravada em cidades do interior de São Paulo, como Cabreúva, onde, segundo o diretor, ainda existem áreas com características semelhantes às da capital goiana na década de 1980.
Outras locações utilizadas pela produção incluem municípios como Sorocaba, Campinas e Osasco. No caso das cenas envolvendo estádios, por exemplo, a equipe optou por gravar em Sorocaba devido às reformas e modernizações ocorridas no Estádio Olímpico de Goiânia ao longo dos anos.
A produção também realizou captações na própria capital goiana. De acordo com Coimbra, imagens aéreas e externas de ruas da cidade foram gravadas para reforçar a presença de Goiânia na narrativa.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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