“Você peladinha", recorda Kyra Gracie ao denunciar assédio no esporte

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“Você peladinha", recorda Kyra Gracie ao denunciar assédio no esporte - Metrópoles

Quinze anos após deixar competições de jiu-jítsu, Kyra Gracie resolveu contar casos de assédio que viveu dentro do esporte. A ex-atleta e empresária gravou um vídeo para as redes sociais e detonou o comportamento de professores, patrocinadores e medalhistas.

“Eu preciso falar. E, por muitos anos, eu fiquei calada sobre o que vivi e presenciei dentro do jiu-jítsu de competição. Há muito tempo, resolvi que não posso mais ficar calada e isso foi libertador pra mim”, começou.

Caso pessoal de assédio

Em seguida, ela recordou um caso específico que aconteceu com ela: “’Imagino você peladinha dentro do meu kimono keiko’. Um senhor de idade falando isso para uma menina. E essa menina era eu, com 18 ou 19 anos. Ele veio me abordar, dizendo que queria me patrocinar, e eu congelei”, lembrou, antes de completar:

“Quando tava nos eventos e ele aparecia, eu me escondia, congelava de novo. Ele errou, mas eu me calei. Guardei isso até agora porque o ambiente silencia muito as mulheres”, desabafou.

E prosseguiu: “Muitas pessoas pensam que, por ser da Família Gracie, estou blindada, né? Tantos tios e primos faixas-pretas, mas já passei por muitas situações constrangedoras, de assédio e tenho certeza que se eu não fosse da Família Gracie seria muito pior”, afirmou.

Assediador segue no esporte

Ainda na gravação, Kyra Gracie comentou: “Bom, esse senhor que falei do kimono continua, hoje, patrocinando eventos e meninas no esporte. Por isso, eu preciso que você, que está vendo esse vídeo, também entre nessa luta”, convocou.

Ela aproveitou para fazer mais denúncias: “O assédio que acontece nos bastidores com meninos e meninas não é uma exceção, é um problema do sistema todo. Faz parte da cultura do jiu-jítsu e vai sendo passado de geração em geração”, pontuou.

Muitos casos

A lenda do jiu-jítsu foi além: “Testemunhei centenas de casos e, por muito tempo, tive medo de falar. Sei que vou ser criticada por só falar agora, mas o silêncio só protege os agressores. E a cada dia estão surgindo mais denúncias de assédio contra professores e nomes renomados do meio da luta”, observou.

E continuou seu relato: “Claro que esses casos devem ser apurados pela Justiça, mas quero falar que denúncias assim, infelizmente, não me pegam de surpresa. Porque quem viveu nesse meio sabe que essas situações são tratadas como normal: [dizem] ‘Ah, qual o problema? A menina que tá indo em cima dele, ela que tá dando mole pro professor’”, disse.

Ambiente perigoso

Logo depois, Kyra analisou: “A maioria das mulheres do jiu-jítsu já passaram por algo semelhante. E o ambiente da competição de jiu-jítsu é, de fato, muito perigoso para meninas e mulheres. Salvo pouquíssimas exceções”, declarou.

Ela ainda queixou-se: “E o mais grave é que é estrutural. É uma cultura que protege ídolos, os grandes mestres, silencia as vítimas e, o pior, incentiva esse tipo de atitude. Quem será a próxima vítima? Tem até competição de quem vai ser o primeiro a sair com a menina recém-matriculada na academia. Eu vi, muitas vezes”, garantiu.

Detonou as federações

No vídeo, Kyra aproveitou para detonar os representantes do esporte: “As federações não seguem nem as regras, não tem eleição nem nada. Elas dão maus exemplos. Não tem canais de denúncias. Então, como vão dar o exemplo abaixo? A gente finge que tem uma federação que representa o esporte, mas de fato não tem”, disparou.

A empresária, então, opinou: “O que eles querem é aumentar o número de inscritos e dinheiro na conta. Não querem cuidar do que realmente importa. Quantos casos, ao longo de toda a minha trajetória, vi que foram abafados? Eu sei de muitos. Campeões mundiais, Hall da Fama. Não são poucos”, comentou.

A saída das competições

Na sequência, ela revelou o motivo de ter deixado as disputas: “Resolvi me afastar desse meio da competição, de muitas pessoas que foram meus professores, amigos próximos de treinos. Que ainda são idolatrados, mas tinham atitudes que eu ficava horrorizada. Eu não queria compactuar com aquilo ali, não queria mais ser testemunha que não pode falar. Não queria continuar naquele ambiente, fingindo que não tava vendo”, lembrou.

E desabafou: “Então, me afastei pra me proteger. Mas hoje falo pra proteger outras mulhres. Muitas vezes, pensei em desistir do jiu-jítsu, falei ‘realmente esse não é um ambiente bom pra mulher, é tóxico’”, pontuou.

Kyra também reclamou: “Você está sempre sendo diminuída. Isso se dá em falta de valorização das mulheres, elas não lutam na hora do principal. São várias etapas. Mulheres denunciam, são expostas, são sempre loucas, são sempre deixadas de lado. É isso que aprendi a tolerar. E tive que sair”.

Decisão pelas filhas

A ex-competidora relatou: “Me afastei porque é um meio que, como mulher, não me sinto feliz, não quero levar minhas filhas e não me sinto confortável. Tive que buscar uma outra forma de continuar no jiu-jítsu, porque eu amo. Por isso criei meu próprio espaço”, assumiu.

Como mãe, ela explicou sua atitude: “Não queria que as minhas filhas, sou mãe de duas meninas, crescessem no mesmo ambiente que cresci, sendo diminuídas, silenciadas, sabendo que aquele carinha que tá ali o tempo todo, em cima… Meu Deus do céu, só de pensar me dá arrepio”, definiu.

E finalizou: “Acredito que o caráter vale muito mais que medalha, não estou nem aí pra medalhas que não vêm acompanhada de bom caráter. Medalhas cheias de ego e atitudes deploráveis que eu não quero por perto”, encerrou.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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