Autor: jonysdavid2017@gmail.com

  • Zona Franca de Manaus financia o futuro da Amazônia

    Zona Franca de Manaus financia o futuro da Amazônia

    23/02/2026 06:00, atualizado 23/02/2026 06:00

    metropoles.com

    Na Amazônia, o tempo não se mede apenas pelo relógio. Ele se mede pela cheia e pela vazante dos rios, pelo esforço necessário para chegar onde a estrada não chega. Em um estado onde comunidades inteiras dependem da dinâmica das águas e onde o deslocamento pode levar dias, falar em desenvolvimento exige compreender essa realidade.

    É nesse cenário, onde o Brasil parece distante dos grandes centros decisórios, mas central na biodiversidade, na geopolítica e no debate climático global, que um modelo econômico transformou galpões industriais em salas de aula, incentivos fiscais em laboratórios e política tributária em formação acadêmica.

    A Zona Franca de Manaus costuma ser debatida em Brasília sob a lógica da planilha: quanto custa, quanto arrecada, quanto renuncia. Mas, no Amazonas, ela é vivida sob outra lógica: quantos médicos forma, quantos engenheiros retém, quantos professores chegam ao interior, quantas pesquisas deixam de ser sonho e viram solução.

    Modelo que vai além da fábrica

    Quando foi criada, em plena ditadura militar, a Zona Franca tinha objetivo claro: integrar a Amazônia ao restante do país. A preocupação era fixar população, garantir soberania e estruturar economia em um território vasto e historicamente negligenciado pelo poder central.

    Ao longo das décadas, o modelo evoluiu. Consolidou-se como polo industrial relevante, especialmente nos setores de eletroeletrônicos, duas rodas e bens de informática. Sobreviveu a crises econômicas, mudanças de governo e revisões constitucionais. Foi prorrogada sucessivamente até ter a vigência garantida na Constituição Federal até 2073.

    Mas, a legislação que sustenta esse modelo exige contrapartidas. Empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais devem investir em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). E, pela Lei de Informática, 5% do faturamento líquido deve ser destinado a essa finalidade.

    No Amazonas, isso não é formalidade contábil. É um motor transformador.

    “Quando alguém fala da Zona Franca apenas como renúncia fiscal, está olhando metade da equação. O Polo Industrial financia pesquisa, sustenta universidades e cria um ecossistema de inovação que impacta o estado inteiro.”

    Bosco Saraiva, superintendente da Zona Franca de Manaus

    Homem mais velho, de cabelos grisalhos, veste terno escuro e camisa clara. Está sentado atrás de uma mesa com um copo de água ao lado. Ao fundo, há um quadro colorido na parede. Ele sorri de forma confiante, transmitindo postura institucional.
    Bosco Saraiva: “O incentivo, aqui, não termina na fábrica. Ele percorre laboratórios, bibliotecas, salas de aula e centros de pesquisa”

    Universidade financiada pela indústria

    A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) é talvez o exemplo mais concreto dessa interdependência.

    Enquanto em outras unidades da federação as universidades estaduais dependem majoritariamente do orçamento estadual, no Amazonas a sustentação da UEA está conectada ao desempenho industrial.

    Presente nos 62 municípios do estado, ela é mantida com recursos vinculados às contribuições das empresas instaladas no Polo Industrial.

    Em 2025, essa conexão atingiu um patamar histórico. O financiamento destinado à Universidade do Estado do Amazonas ultrapassou R$ 929 milhões, consolidando a instituição como um dos maiores patrimônios educacionais sustentados pelo modelo da Zona Franca.

    O número não é apenas orçamentário, ele representa salas funcionando no interior, laboratórios equipados, bolsas de pesquisa mantidas e milhares de estudantes assistidos.

    Em 25 anos, a UEA formou mais de 80 mil profissionais. São médicos atuando no interior profundo, engenheiros absorvidos pela indústria e pelos institutos tecnológicos, professores indígenas fortalecendo a educação básica em territórios tradicionais, e pesquisadores desenvolvendo soluções adaptadas à realidade amazônica.

    Para o reitor André Zogahib, a universidade é hoje uma política pública estruturante.

    “A UEA não é apenas uma instituição de ensino superior. Ela é uma ferramenta de redução de desigualdade regional”, afirma.

    Segundo ele, a interiorização do ensino superior no Amazonas não pode ser analisada sob a mesma lógica de estados com malha rodoviária consolidada.

    “Educação não é gasto, é investimento. E, no Amazonas, isso é literal.”

    André Zogahib, reitor da UEA

    Homem jovem, barba aparada, usando camisa polo rosa, está em pé sorrindo diante de uma estante com prêmios e certificados. O ambiente parece ser um escritório institucional ou empresarial
    André Zogahib: “Nós levamos ensino superior onde muitas vezes o Estado só chegava de forma pontual. A presença da universidade reorganiza o município”

    Antes, concluir o Ensino Médio em muitos municípios significava enfrentar um dilema: migrar para Manaus, com custos financeiros e emocionais elevados, ou abandonar o sonho da graduação. Hoje, a universidade está presente em boa parte do território. O ensino chega por barco, por estrada, por avião quando necessário. Chega como política pública estruturada.

    Cursos como Engenharia registram empregabilidade quase imediata, impulsionada pelo Polo Industrial. Medicina, que enfrentou dificuldades nos primeiros anos, apresentou evolução em indicadores e infraestrutura. Segundo a gestão da UEA, cerca de 80% dos cursos cresceram em avaliações recentes.

    “Nós formamos profissionais conectados à realidade do Polo Industrial. Isso explica a absorção rápida de engenheiros e tecnólogos”, explica o reitor.

    Inovação aplicada

    Se a UEA representa o braço educacional do modelo, os institutos de tecnologia são a força aplicada.

    Ao todo, 183 institutos estão aptos a receber recursos de PD&I no Amazonas. Apenas em 2025, os investimentos superaram R$ 1,6 bilhão.

    Esses recursos financiam projetos de automação industrial, inteligência artificial, sistemas embarcados, certificação técnica, desenvolvimento de softwares, biotecnologia e soluções ambientais.

    “Aqui, a pesquisa nasce de uma demanda real. A indústria traz o desafio, e o instituto transforma isso em solução tecnológica.”

    Armando Ennes do Valle, diretor de Negócios da FPFtech (Fundação Paulo Feitoza)

    A FPFtech desenvolve sistemas, faz certificações, testa equipamentos, estrutura projetos de alta complexidade. Estudantes se tornam bolsistas. Bolsistas se tornam pesquisadores. Pesquisadores se tornam especialistas absorvidos pelo mercado.

    Esse movimento altera uma lógica histórica da Amazônia: a migração compulsória de talentos.

    “Antes, o jovem que queria trabalhar com tecnologia precisava sair do estado. Hoje, ele encontra aqui projetos de alta complexidade”, frisa Armando.

    Homem de cabelos grisalhos e barba curta, usando óculos e blazer claro, está sentado em uma mesa de escritório diante de um notebook. Ao fundo, há uma parede com um painel institucional. A expressão é séria e atenta, sugerindo ambiente corporativo e de tomada de decisão
    Armando Ennes do Valle: “A indústria nos apresenta um problema real. A partir disso, desenvolvemos a solução. O resultado volta para a empresa em forma de competitividade”

    O Polo Industrial é uma ferramenta

    Nilmar Pimenta, diretor educacional da FPF, destaca que o maior erro do debate nacional é tratar a Zona Franca como exceção fiscal, quando ela é, na prática, um modelo de desenvolvimento regional consolidado.

    “O Polo Industrial não é um privilégio. É uma ferramenta. Ele gera arrecadação, emprego, pesquisa e formação. Quando se enfraquece o modelo, enfraquece-se toda essa cadeia”, pondera.

    Para Nilmar, o impacto é sistêmico. A indústria não se limita a gerar postos de trabalho diretos. Ela movimenta serviços, logística, comércio e, principalmente, conhecimento.

    “Se você enfraquece a indústria, enfraquece a universidade. Se enfraquece a pesquisa, perde competitividade. É um sistema integrado.”

    Nilmar Pimenta, diretor educacional da FPF

    Ele ainda explica que o Amazonas preserva mais de 90% da cobertura florestal original; e que o Polo Industrial é apontado como um dos elementos que reduziram a pressão por atividades predatórias em larga escala.

    Homem de meia-idade, usando camisa social clara e crachá, está sentado em frente a uma parede verde com a palavra “Inovação” escrita em destaque. Ele sorri levemente. O ambiente é corporativo e moderno, remetendo a tecnologia e pesquisa
    Nilmar Pimenta: “Desenvolvimento e preservação não são opostos aqui. São complementares”

    Modelo sob pressão

    Apesar da consolidação histórica, a Zona Franca nunca foi consenso nacional.

    Debates sobre reforma tributária reacendem questionamentos sobre incentivos regionais. Estados mais industrializados questionam competitividade. Economistas discutem eficiência fiscal.

    Marcos Roberto de Paula, diretor da Fundação Matias Machline, alerta que a discussão precisa considerar desigualdades estruturais.

    “Não se pode tratar igualmente os desiguais. A Amazônia tem desafios logísticos, geográficos e históricos que não se comparam ao restante do país”, ressalta.

    Homem jovem de barba e óculos, usando camisa branca, está em área externa com jardins e prédios modernos ao fundo. Ele sorri diretamente para a câmera. O ambiente sugere campus universitário ou centro de pesquisa.
    Marcos Roberto de Paula: “Investimento em indústria e ciência não se faz no curto prazo. Precisa de previsibilidade”

    A floresta real

    A Amazônia é frequentemente retratada como lugar distante da tecnologia. Mas, nos laboratórios, a cena é outra: jovens pesquisadores discutindo inteligência artificial, sistemas embarcados e certificações técnicas em estruturas modernas instaladas no meio da maior floresta tropical do planeta.

    “Quando se fala em acabar ou reduzir incentivos, é preciso perguntar: o que acontece com a universidade? Com os institutos? Com a formação de milhares de jovens?”, questiona Bosco Saraiva, superintendente da Zona Franca de Manaus.

    A Amazônia sempre foi vista como fronteira ora a ser ocupada, ora a ser preservada. O que o modelo da Zona Franca demonstra é que ela também pode ser território de conhecimento.

  • Aliados de Alcolumbre desconfiam da intenção de Renan ao ouvir Vorcaro

    Aliados de Alcolumbre desconfiam da intenção de Renan ao ouvir Vorcaro

    VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
    Renan Calheiros durante comissão mista que analisa a Medida Provisória (MP) 1303 25, que tributa aplicações financeiras e ativos virtuais Metropoles 2

    Aliados de Davi Alcolumbre (União-AP) desconfiam das reais intenções de Renan Calheiros (MDB-AL) ao articular o depoimento de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

    A aposta dos aliados de Alcolumbre é de que o alvo principal de Renan com a oitiva não seria a relação do banqueiro com Arthur Lira (PP-AL), adversário do emedebista em Alagoas, mas, sim, com o próprio atual presidente do Senado.

    Aliados de Alcolumbre lembram que Lira conhece Vorcaro por intermédio do senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP. Mas, diferentemente de Ciro e de Alcolumbre, Lira e o banqueiro não seriam tão próximos assim.

    A avaliação dos aliados de Alcolumbre é de que Renan quer usar o depoimento do dono do Master, na verdade, para atingir o atual presidente do Senado, de olho na próxima disputa pelo comando da Casa, em fevereiro de 2027.

    Para senadores próximos a Alcolumbre, Renan nunca engoliu a derrota para o senador amapaense na eleição para a presidência do Senado. O senador alagoano, avaliam, ainda sonharia em voltar a comandar a Casa.

  • Quem tem pressa, come tarifa: Lula saboreia vitória

    Quem tem pressa, come tarifa: Lula saboreia vitória

    Andrew Harnik/Getty Images
    Presidente dos EUA, Donald Trump, se reúne bilateralmente com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, no Centro de Convenções de Kuala Lumpur Malásia Metrópoles

    Em tempos onde políticos e militantes mais torcem pela falha do adversário do que pelo bem do país, é fácil entender o alívio de Lula. O presidente saboreia uma vitória diplomática.

    Lula entregou cautela. Mostrou que o diálogo compensa.

    “Quem tem pressa come cru”. Eis o mantra que hoje ecoa nos corredores do Palácio.

    Enquanto boa parte do mundo se curvou aos abusos de Donald Trump, como se validassem sua postura de rei do universo, o Brasil pisou no freio. Resistiu. Não foi fácil chegar até aqui, é verdade. Mas vale, sim, o grito de vitória.

    E valem também as alfinetadas. Aos diplomatas americanos, o lembrete de que não se governa por rede social. Ao “imperador”, o aviso: não se interfere na Suprema Corte — nem na dele, nem na dos outros.

    “Me parece que do lado de lá não tem tanta vontade de negociar porque eles acham que o presidente Trump resolve as coisas pelo Twitter”, disse Lula

    A aposta segue, portanto, na relação civilizada. No ganha-ganha. O jogo só destrava quando o telefone toca. É a política do contato direto vencendo a frieza de gabinetes paralisados pelo medo.

    Por enquanto, o placar de 15% é muito melhor que os 50% de antes. Os profetas do caos de julho tiveram que guardar as cornetas no armário. Mas a calmaria, como se sabe, é apenas o intervalo entre um post e outro.

    Sigamos.

  • Brasil e Coreia do Sul concordam em destravar negociação de acordo com o Mercosul

    Brasil e Coreia do Sul concordam em destravar negociação de acordo com o Mercosul

    Ricardo Stuckert / PR
    Lula presidente coreano, Lee Jae-myung, em encontro bilateral em Seul

    Seul – O presidente Lula (PT) e o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung concordaram em destravar as negociações do acordo entre o país asiático e o Mercosul durante encontro bilateral que mantiveram em Seul nesta segunda-feira (23).

    Segundo Jae-myung, durante a bilateral, ele reiterou a importância de retomar as negociações, com o que o presidente Lula teria concordado.

    A pauta é de interesse da Coreia do Sul, e o presidente do país já pretendia abordá-la no encontro, conforme mostrado na coluna de Milena Teixeira, antes de a comitiva brasileira embarcar para a Ásia.

    O acordo começou a ser discutido em 2018, e a última rodada de negociação ocorreu em 2021. Em seu discurso, Lula também destacou o tema.

    “Em relação às negociações entre o MERCOSUL e a República da Coreia, discutimos caminhos para retomar as tratativas interrompidas em 2021”, disse o brasileiro.

    Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, o embaixador sul-coreano no Brasil, Yeong-han Choi afirmou que a Coreia vê o Mercosul como um ótimo parceiro comercial.

    Parceria estratégica

    Brasil e Coreia elevaram a parceria entre os países ao grau de parceria estratégica. Esse tipo de aliança prevê uma aproximação formal entre duas ou mais partes para o alcance de objetivos em comum. Os líderes também anunciaram o lançamento de um plano de ação com iniciativas que valerão pelos próximos anos.

    O presidente Lee Jae-myung destacou que o plano orientará as relações dos países em diversas áreas. Diálogo político, cooperação econômica e intercâmbio de pessoas são algumas delas.

    Lula também citou outros pontos abordados na conversa que fazem parte da agenda bilateral dos países, como transição energética, exploração de minerais críticos, cooperação no setor de tecnologia, aproximação nos setores de beleza e cultura, entre outros.

    “Assinamos hoje acordos em uma variada gama de temas, como saúde, empreendedorismo, agricultura, ciência e tecnologia e combate ao crime organizado transnacional”, afirmou Lula.

    Abertura do mercado à carne bovina

    O presidente Lula abordou, além disso, a importância da exportação de carne bovina brasileira para o país asiático.

    “Expus ao presidente Lee que a conclusão dos procedimentos sanitários para a exportação de carne bovina brasileira poderá beneficiar os consumidores coreanos”, declarou a jornalistas.

    Lula visita a Coreia do Sul para uma visita de Estado ao presidente coreano, em busca de aprofundar a parceria entre os países e ampliar a abertura do mercado do país asiático à carne bovina. Antes, o chefe do Palácio do Planalto esteve em Nova Délhi para uma Cúpula de Inteligência Artificial e para uma visita de Estado ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi.

  • Em briga interna, PCC proíbe delivery de drogas na maior favela de SP

    Em briga interna, PCC proíbe delivery de drogas na maior favela de SP

    Arte/Metrópoles
    Arte gráfica de mão segurança celular, em um primeiro plano, com motoqueiro no segundo plano, no período noturno - Metrópoles

    O delivery de drogas criado com a ideia de facilitar a venda para usuários em Heliópolis, zona sul paulistana, acabou provocando uma crise dentro do próprio Primeiro Comando da Capital (PCC). Trata-se da maior favela da capital paulsita em extensão territorial, com 1,2 milhão de km², segundo a Prefeitura de São Paulo.

    Mensagens apreendidas pela Polícia Civil, obtidas pela reportagem (veja galeria abaixo), revelam integrantes da facção reclamando que a modalidade estaria prejudicando quem “lutou” para conquistar as biqueiras, como são chamados os pontos fixos de venda.

    A contradição chamou atenção dos investigadores, pelo fato de criminosos denunciarem “irregularidades” dentro de um comércio que já é ilícito. O episódio aparece no mesmo inquérito que investiga o núcleo liderado por Michael da Silva, o Neymar, e que menciona Everton de Brito Nemésio, o Delinho, apontado como integrante do alto escalão da facção.

    Delinho está foragido da Justiça e é descrito pela polícia como um dos chefões que integram o mais recente organograma do PCC elaborado pelo Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo (Dipol).

    A ligação com Delinho, segundo o inquérito policial, reforça a conexão entre lideranças superiores e a estrutura local em que Neymar atuava. Ele seguia preso preventivamente, até a última atualização processual obtida pelo Metrópoles. Sua defesa não foi localizada e o espaço segue aberto para manifestações.

    Mensagem que acendeu o alerta

    O comunicado interno do PCC, enviado em julho de 2024 e anexado ao processo obtido pela reportagem, circulou entre integrantes da facção, deixando clara a insatisfação com o novo modelo de venda.

    “Comunicar a todos que estão vendendo drogas em pedaços e no delivery irregularmente nas comunidades a onde já existe biqueiras. Está chegando várias ideias na sintonia com descontentamento de seus respectivos donos. Deixamos claro a todos que esse comércio já é feito pelas lojas [biqueiras] nas quebradas na qual são cadastradas e teve sua trajetória de luta para ser conquistada.”

    Os criminosos, segundo a mensagem de texto, tratam o tráfico como se fosse um mercado formal, com territórios definidos e uma lógica de “direitos adquiridos” por quem domina determinadas áreas.

    Quando o delivery virou problema

    Nos relatórios, a Polícia Civil descreve que Neymar comandava um canal específico de venda e entrega de entorpecentes, operado junto com a esposa, a qual consta no processo como investigada pela polícia. As mensagens analisadas mostram que o casal tratava diretamente de valores, entrega e organização do esquema.

    Para os investigadores, o sistema ampliava o alcance das vendas e permitia que consumidores deixassem de ir às biqueiras, afetando o comércio presencial e provocando desconforto entre traficantes locais, o que gerou o compartilhamento da mensagem no WhatsApp.

    A esposa de Neymar, segundo o relatório, aparece como peça central da operação, com papel ativo na logística e familiaridade com termos ligados ao tráfico, reforçando sua participação direta no esquema. Ele teria criado a proposta visual do “cardápio” de drogas, enviado aos clientes por mensagem, no qual havia a presença da personagem de desenho animado Pantera Rosa.

    Não há menções no processo se a mulher de Neymar foi presa.

    Liderança e operação paralela

    A investigação da Polícia Civil ainda aponta que Neymar ocupava função importante dentro do PCC, com participação na chamada “Sintonia Final do Resumo”, núcleo ligado à tomada de decisões e ao direcionamento estratégico da facção.

    Com prestígio entre integrantes e tratado como liderança, ele teria usado essa posição para estruturar o delivery. Ao ganhar escala, porém, a prática passou a incomodar setores internos da organização criminosa.

    O comunicado contra o delivery chegou a membros da facção identificados em conversas extraídas de aparelhos apreendidos com Neymar, inclusive de um celular classificado como “telefone sujo”, usado para tratar de conteúdos ilícitos.

    Segundo o relatório, o recado reforçava que a venda deveria permanecer nas “lojas” cadastradas, respeitando a hierarquia e a trajetória de quem já controlava os pontos em Heliópolis e outras comunidades.

    Para os investigadores, o caso revela o grau de organização interna da facção. O delivery, pensado como avanço para ampliar vendas e reduzir exposição em pontos fixos, acabou esbarrando em interesses econômicos antigos.

  • Cão Orelha: caso expõe aumento nas denúncias de maus-tratos no DF

    Cão Orelha: caso expõe aumento nas denúncias de maus-tratos no DF

    De acordo com dados da ouvidoria do GDF, houve uma média de 76 reclamações por mês, no ano passado

  • PT aposta em conexões com Master para desgastar governo Tarcísio

    PT aposta em conexões com Master para desgastar governo Tarcísio

    Pablo Jacob / Governo de SP
    O governador Tarcísio de Freitas - Metrópoles

    Diante do escândalo envolvendo o Banco Master, que atinge diferentes esferas de governo e partidos, o PT tem explorado a teia de relações da atual gestão estadual em São Paulo com personagens ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro para tentar desgastar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em ano eleitoral.

    O assunto já vinha sendo explorado devido ao fato de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, ser o maior doador da campanha de Tarcísio em 2022, com R$ 2 milhões. Como Zettel é investigado pela Polícia Federal (PF) por ser operador dos negócios do banqueiro, a doação é frequentemente associada por opositores ao próprio dono do Master.

    Agora, a oposição a Tarcísio no estado busca deixar claras novas conexões no caso. O líder do PT na Assembleia Legislativa (Alesp), deputado Antonio Donato (PT), publicou um vídeo recentemente em que liga o caso Master às negociações envolvendo as privatizações da Emae, empresa de geração de energia elétrica e de gestão hídrica, e da Sabesp, gigante de abastecimento de água.

    O fio condutor da peça são negócios do empresário Nelson Tanure, apontado como sócio oculto do Master, com menções ao presidente da Sabesp, Carlos Piani. Piani foi presidente do conselho da Ambipar e também da Equatorial, que depois comprou a Sabesp.

    Negociações bilionárias

    O caso remonta à compra da Emae pelo Fundo Phoenix, ligado a Tanure, por um R$ 1 bilhão, em 2024, vencendo a francesa EDF e a Matrix Energia.

    Um documento da área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ao qual o Metrópoles teve acesso, aponta a valorização manipulada das ações da Ambipar como uma espécie de lastro para a aquisição da Emae.

    “Tratava-se, em verdade, da criação de valor nesse ativo para que pudesse ser empregado de forma mais eficiente em uma operação estratégica subsequente e de grande porte, a aquisição da Emae (beneficiando o Sr. Nelson Tanure)”, diz o documento. O caso é investigado.

    O assunto virou munição para o líder do PT na Alesp, que destaca a presença de Piani como presidente do conselho da Ambipar no período (veja vídeo abaixo).

    “O fundo Phoenix é composto, basicamente, por ações da empresa Ambipar, e a CVM identificou ações coordenadas entre o banco Master, o investidor Nelson Tanure, o controlador Tércio Borlenghi para inflar artificialmente o valor dessas ações. As ações da Ambipar foram infladas em mais de 700%, numa operação estruturada pelo presidente da Ambipar, Carlos Piani”, disse Donato no vídeo.

     

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    Um post compartilhado por Antonio Donato (@donatopt)

    Os documentos da CVM ao qual a reportagem teve acesso não citam Piani nominalmente no episódio, apenas os controladores das empresas envolvidas, Borlenghi, da Ambipar, e Tanure, do fundo Phoenix, entre outros.

    Já a Emae, nas mãos do fundo ligado a Tanure, investiu cerca de R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, banco ligado ao conglomerado do Banco Master e que foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC). Nelson Tanure, por sua vez, hoje é investigado sob suspeita de ser sócio oculto do Master.

    Por não conseguir honrar juros de debêntures emitidos para pagar a Emae, a XP executou garantias do Fundo Phoenix de Tanure e a companhia foi comprada pela Sabesp, que na época já tinha Piani como CEO. O fundo Phoenix tentou barrar a negociação, sem sucesso.

    Cronologia das privatizações

    Vidraças

    Até agora, a vidraça de Tarcísio de mais fácil entendimento no caso continua sendo a ligação com Fabiano Zettel, maior doador da campanha do governador e também do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2022.

    De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Zettel repassou R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro. Já para Tarcísio, a doação foi de R$ 2 milhões. O investigado só doou menos que diretórios dos partidos das coligações das campanhas.

    Zettel foi preso na Operação Compliance Zero, que mira fraudes ligadas ao banco Master. Como a investigação está longe do fim, a oposição acredita que novos capítulos que possam surgir servirão para ajudar a cristalizar as conexões de Tarcísio com os personagens do escândalo.

    Não há, até o momento, acusação formal de irregularidade contra o governo paulista ou a Sabesp no âmbito do caso Master. No entanto, a teia de relações funcionaria até para blindar o governo federal e o PT contra eventuais acusações neste sentido –por ora, o ponto mais sensível são supostas ligações do caso com a ala baiana da sigla.

    O que dizem o governo e a Sabesp

    O governo Tarcísio afirmou que “os processos de desestatização da Sabesp e da Emae foram fundamentados em ritos administrativos rigorosos, garantindo total segurança jurídica e proteção ao patrimônio público”.

    Além disso, a nota da administração afirma que as operações foram baseadas em estudos técnicos independentes de instituições como o BNDES e a International Finance Corporation. “O modelo de venda via leilão na B3 [Bolsa de Valores] assegurou máxima competitividade sob fiscalização do Tribunal de Contas do Estado”.

    Além disso, a gestão afirma que a aquisição da Emae pela Sabesp foi uma decisão estratégica de mercado, “sem qualquer participação ou ingerência da administração pública estadual, e ratificada pelos órgãos de controle competentes e pelo CADE”.

    Já a Sabesp afirmou que a escolha de Carlos Piani para presidente, assim como toda a diretoria após a desestatização, “passou por todas as avaliações e análises de conformidade (compliance) e não foi identificado nenhum conflito de interesses ou impedimento legal para a sua atuação”.

    “Sobre a aquisição da Emae, é importante ressaltar que não existia qualquer relação anterior da Sabesp ou de sua diretoria com a empresa. A compra das ações foi um movimento estratégico, transparente e que passou pelo crivo e pela aprovação formal dos órgãos máximos de fiscalização do país: o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)”, diz a nota da empresa.

    A companhia ainda afirmou repudiar “o uso político e a divulgação de informações falsas”.

  • Mesmo após acidente com van pirata, transporte ilegal no DF segue bombando. Vídeo

    Mesmo após acidente com van pirata, transporte ilegal no DF segue bombando. Vídeo

    A morte de cinco pessoas que vinham da Bahia para o Distrito Federal reacende um debate sobre o quão comum são viagens clandestinas em trajetos interestaduais. O Metrópoles passou dois dias percorrendo rodoviárias da capital do país e flagrou, com facilidade, carros de passeio oferecendo viagens a passageiros que buscavam soluções mais rápidas para chegar aos seus destinos, bem como famílias e comerciantes aceitando as ofertas.

    Logo ao chegar na Rodoviária Interestadual de Brasília, na tarde da última quinta-feira (19/2), a reportagem foi abordada por motoristas que costumam sair da capital até Anápolis (GO), Goiânia (GO), Unaí (MG), Paracatu (MG) e outros municípios próximos. Os loteiros buscam oferecer saídas mais rápidas aos passageiros que não querem esperar pelos ônibus convencionais, como mostram os vídeos acima.

    “[Vai para] Goiânia? Anápolis?”, pergunta um motorista. O homem promete rapidez caso a equipe aceite a viagem. “Eu já estou pronto, estou com dois passageiros. Se vocês forem, estou pronto, é só pegar o carro e ir embora”, completa.

    Os loteiros estacionam seus veículos em área próxima à Rodoviária e esperam somar quatro passageiros para seguir viagem, cobrando cerca de R$ 90 a cada cidadão. “Se fizer um descontinho vocês já vão agora? Vou fazer R$ 80 pra vocês”, propõe o motorista.

    O cenário é parecido na Rodoviária de Taguatinga, visitada pela reportagem também na quinta-feira (19/2). “Anápolis, Goiânia?”, pergunta um dos motoristas, reunido com os demais loteiros. “R$ 100 cada um”, precifica. “Se vocês forem, vai faltar só um [passageiro]. Já estou com um [passageiro confirmado], se vocês forem, vai faltar só um para nós sairmos”, comenta o condutor.

    No dia seguinte, na sexta-feira (20/2), o Metrópoles voltou a presenciar o transporte pirata na Rodoviária Interestadual de Brasília. Um motorista chegou a dizer que faria o trajeto Brasília-Goiânia em duas horas. “Se vocês forem agora, vou buscar o carro ali. Querem ir agora”, pergunta.

    Pouco tempo depois, o mesmo motorista se prepara para seguir viagem com um homem, uma mulher e uma criança — os passageiros parecem ser uma família. A reportagem flagrou o motorista, de chinelos, repassando uma quantia em dinheiro, possivelmente paga pelos clientes, a outros parceiros de lotação antes de embarcar.

    Comerciantes do DF viajam de ônibus

    Além dos carros de passeio que levam cidadãos a municípios próximos do DF, há ainda os ônibus que costumam fazer viagens interestaduais a estados mais distantes. São Paulo, por exemplo, é um destino comum a comerciantes de feiras e lojas de vestuário.

    A reportagem também acompanhou a chegada de dois coletivos vindos da capital paulistana direto para a Feira Central de Ceilândia. Lá, os passageiros desembarcam mercadorias e levam aos comércios, como mostram as imagens acima.

    O Metrópoles apurou em campo que os coletivos saem quase todos os dias de pontos estratégicos de Taguatinga e Ceilândia rumo a São Paulo. Há ônibus partindo das duas regiões administrativas nas segundas, quartas quintas e sextas-feiras. Os motoristas saem por volta das 9h, deixam os passageiros no bairro do Brás para que eles façam compras e voltam no dia seguinte.

    Não há indícios evidentes de irregularidade por parte das empresas de turismo que fazem o trajeto Brasília-São Paulo, mas a prática mostra a preferência do cidadão pelo transporte alternativo em detrimento das linhas convencionais. Os principais motivos, de acordo com fontes que não foram identificadas, são os horários adequados às demandas dos passageiros e os preços especiais em relação às empresas tradicionais.

    Tragédia com van no DF

    Na terça-feira (17/2), uma van que trazia 17 pessoas de Santa Rita de Cássia, na Bahia, para o DF, bateu na traseira de um caminhão, na BR-020, pouco depois de Formosa (GO), sentido Plano Piloto. Cinco pessoas morreram, e as outras 12 ficaram feridas.

    As cinco vítimas que não resistiram ao impacto da batida são Everaldo de Oliveira dos Santos, 52, Laudenice Vogado de Oliveira, 58, Ravy Gael da Silva Vogado, 4, Geneilde da Silva Lima, 39, e Valtim Chaves dos Santos, 64 anos. Todas eram passageiras da van; o motorista do caminhão, único ocupante do veículo, não se feriu.

    A Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) informou, horas após o acidente, que a van era clandestina e tinha status “inativo”, portanto não tinha licença para rodar.

    Em depoimento à Polícia Civil do DF (PCDF), o motorista da van assumiu que dirigia há mais de 12 horas seguidas no momento em que bateu na traseira do caminhão. A legislação brasileira prevê que condutores de transporte rodoviário coletivo de passageiros ou de cargas podem dirigir por, no máximo, 5 horas e 30 minutos sem parar. Dado esse limite, o motorista precisa tirar ao menos 30 minutos de descanso.

    Ônibus fugiu de blitz e capotou com passageiros

    Em outubro de 2023, um ônibus de turismo bateu na traseira de um carro de passeio e capotou na BR-070, após o motorista fugir de uma blitz da ANTT em alta velocidade. No dia do acidente, o condutor acelerou após fiscais darem ordem de parada, na altura de Águas Lindas (GO), sentido Brasília. O coletivo, que vinha do Maranhão, estava fazendo transporte clandestino e tinha pneus carecas.

    Havia 32 passageiros no ônibus, e cinco deles morreram. As vítimas que não resistiram são Maria Eliete Gomes da Silva, 57 anos; João Freire de Sousa, 57; Maria de Deus Fernandes Crateus, 64; Francisco Ferreira da Silva, 71; e Claudia Maria Moreira, 49.

    15 pessoas ficaram feridas. Em dezembro de 2024, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) determinou que a empresa Iristur Transporte e Turismo Ltda, responsável pelo ônibus, indenizasse duas delas, sendo uma mulher e a filha dela.

    A mulher fraturou um fêmur e teve traumatismo craniano e embolia pulmonar, o que a impedia de trabalhar após o acidente. Já a filha dela teve traumas psicológicos “por ter apenas três anos de idade e ter vivenciado um desastre junto com a sua genitora”, considerou o juiz de direito substituto José Rodrigues Chaveiro Filho à época da decisão.

    O dono do ônibus, Alexandre Henriques Camelo, e o motorista, Felipe Alexandre Gonçalves Henriques, são pai e filho. Eles foram presos por homicídio doloso continuado, com dolo eventual.

  • Hacker foragido na Sérvia negocia delação contra policiais civis de SP

    Hacker foragido na Sérvia negocia delação contra policiais civis de SP

    Após diversos procedimentos arquivados nas Corregedorias de Santos, Araçatuba e Iguape, que levaram ao afastamento de um único policial, dois inquéritos foram instaurados pela 5ª Vara Federal de Santos em outubro de 2024 a partir das denúncias feitas por Brito.

    Em setembro do ano passado, a procuradora Gabriela Saraiva Hossri afirmou que os mais de 70 documentos apresentados pelo hacker “indicam a possível participação de outros policiais civis” e cobrou o resultado de perícias técnicas para atestar a autenticidade das provas.

    Enquanto isso, desde outubro, a defesa do hacker negocia os termos da possível delação ao MPF, que demonstrou interesse. As tratativas seguem em andamento. O objetivo dos advogados seria que o acordo contemplasse também o Ministério Público de São Paulo (MPSP), o que não avançou.

    Além disso, há negociação para que a colaboração premiada inclua não só os fatos relacionados à operação Raio X, mas também crimes que teriam sido cometidos pelos policiais antes do contato com o hacker.

    Questionado pelo Metrópoles por meio da assessoria de imprensa, o MPF disse que os inquéritos estão em segredo de Justiça e que não pode fornecer informações sobre o andamento dos procedimentos. O MPSP não se manifestou até o momento da publicação.

    A reportagem não conseguiu contato delegado Carlos Henrique Cotait. Em novembro, ele disse que Brito estava mentindo e que as conversas com outros policiais seriam “montadas”. O delegado afirmou que não é investigado pelo MPF e que nenhum dos procedimentos instaurados até hoje conseguiram provar seu envolvimento no suposto esquema.

    Quem é o “hacker de Araçatuba”

    Márcio França como alvo

    A invasão do celular do médico Franklin Cangussu, que fez com que Brito fosse descoberto, teria ocorrido a partir de uma determinação do delegado Carlos Henrique Cotait, como indicam os prints de conversas entre o hacker e a investigadora Cindy Orsi Nozu, hoje delegada da PF. Ela supostamente teria dado orientações para que Brito invadisse o dispositivo de suspeitos, inclusive do ex-governador Márcio França.

    “Levanta tudo o que você conseguir dele e me avisa”, escreveu a policial. Questionada por Brito, a mulher disse que essa teria sido uma determinação de Cotait: “Foi ele quem falou para te passar”.

    Dias depois, após o hacker enviar uma série de informações sobre Cangussu, Cindy diz que estava usando o material para fundamentar um mandado contra o médico, com o objetivo de atingir o então governador Márcio França.

    “Já estou escrevendo um relatório que já passou de cinquenta páginas e a gente vai usar para pedir a prisão preventiva do Cangussu para ver se ele delata o Márcio França”, afirmou, segundo os prints das mensagens entregues pelo hacker. Ela ainda teria sugerido que Brito hackeasse o próprio político: “Será que não dá para hackear o Márcio França direto, haha”.

    Além de ter os dispositivos invadidos, Cangussu passou a ser extorquido pelo hacker e começou a desconfiar do envolvimento dos policiais que aprenderam seu celular. Ele, então, registrou uma denúncia na Divisão de Crimes Cibernéticos (DcCiber).

    Ao descobrir a existência desse inquérito, que defendeu a instauração de um procedimento na Corregedoria, a equipe de Cotait fez um relatório dizendo que Brito havia invadido um drive usado pela polícia e tido acesso a arquivos sigilosos. Mais tarde, o delegado colocaria a culpa no agente Edison Rodrigues, com base em uma foto tirada dentro da delegacia da tela do celular de Cangussu, que teria possibilitado hackeamentos.

    Apuração preliminar arquivada

    O último procedimento interno da Polícia Civil para apurar o caso foi instaurado em agosto de 2024, na Corregedoria Central de São Paulo, por determinação do então secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite. Na ocasião, ele disse que o objetivo de seria garantir “total transparência” e “evitar a participação de policiais locais”.

    “Nós vamos entrar em contato com ele e convidar para que ele possa apresentar as provas de tudo o que ele fala. Eu garanto para vocês que, havendo participação de qualquer policial civil, isso será severamente apurado e haverá punição”, disse o secretário em entrevista a um canal no YouTube.

    No entanto, cerca de um ano depois, em 5 de setembro, o caso foi arquivado por decisão do corregedor-geral da Polícia Civil, João Batista Palma Beolchi.

    Brito foi ouvido em duas oportunidades no procedimento e entregou vários arquivos, mas testemunhas arroladas por ele não foram chamadas para prestar depoimento. No relatório que pediu o arquivamento, os delegados responsáveis pela apuração citaram conclusões de outras investigações para dizer que as acusações de Brito não procediam. Na maioria dos casos, não houve menção a novas diligências.

    Entre os documentos apresentados pelo hacker estavam prints de conversas com integrantes da equipe do delegado Cotait, como os diálogos que manteve com a investigadora Cindy.

    Sobre isso, o relatório diz apenas que são “acusações infundadas”, porque uma outra apuração preliminar já teria investigado o caso. O mesmo foi dito em relação ao comprovante de uma transferência bancária que teria sido feita pela policial para a avó de Brito. A apuração também não analisou mensagens suspeitas trocadas entre Brito e um escrivão. Segundo as investigações, elas seriam de cunho pessoal e não indicariam que o hacker teria colaborado com a polícia de forma ilícita.