Mortes e demissões: fuga cinematográfica da Papuda completa 10 anos

RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES
Papuda - Metrópoles

Há exatamente 10 anos, na madrugada de 21 de fevereiro de 2016, 10 presos que estavam cumprindo pena no Complexo Penitenciário da Papuda fugiram ao fazer buracos nos alambrados do presídio de segurança máxima. A evasão dos detentos naquele ano escancarou uma crise no sistema penitenciário do Distrito Federal que culminou em demissões de autoridades que ocupavam cargos importantes no Governo do DF (GDF).

Os 10 detentos que fugiram estavam alocados na Penitenciária do Distrito Federal 1 (PDF 1), onde ficam os presos de maior periculosidade. Na época, o GDF informou que a fuga foi confirmada horas depois, durante a chamada nominal feita pelos agentes penitenciários, conhecida como “confere”. Para escapar, os homens quebraram uma parede, porta e cadeados e tamparam as câmeras de segurança.

A guarita de uma das torres de observação que ficava na parte externa da Papuda estava desativada desde 2011.

O episódio incendiou ainda mais o já atribulado cenário do sistema penitenciário do DF naquele período. A fuga resultou na exoneração do secretário de Justiça e Cidadania, João Carlos Souto, bem como do subsecretário do Sistema Penitenciário, João Carlos Lóssio, e o diretor da PDF 1, Mauro Cézar Lima.

O diretor da ala mais perigosa da Papuda chegou a justificar o fato devido ao “sucateamento” do sistema carcerário. Na PDF 1, 200 agentes eram responsáveis por 3,4 mil detentos, em uma proporção de um profissional para cada 17 presidiários, o que, segundo o diretor da instituição, Mauro Cezar Lima, comprometia a segurança do local.

À época, a fuga foi considerada a maior da história do DF. Apenas quatro anos depois, em 2020, o Distrito Federal registrou um número maior: quando 17 presos conseguiram fugir do Centro de Detenção Provisória (CDP).

Roubo e invasão em lote de ex-governador

Os foragidos da Papuda geraram pânico e invadiram pelo menos três casas no Setor de Mansões Dom Bosco (SMDB), no Lago Sul. Dois deles chegaram a sequestrar um caseiro e roubar o veículo dele na noite do dia 21 de fevereiro, mesma data da fuga.

A dupla teria levado ainda celulares, dinheiro e objetos do caseiro, que contou que, ao chegar em casa, por volta das 19h30, após fazer compras no supermercado, foi surpreendido pelos criminosos na garagem. Armados com um revólver e um facão, eles colocaram o homem no banco traseiro do veículo e só o liberaram em Taguatinga, quando teriam dado à vítima R$ 20 para que ela retornasse para casa.

A Polícia Civil do DF (PCDF) também recebeu denúncias de que três dos fugitivos invadiram o lote onde ficava a residência do ex-vice-governador do Distrito Federal, Tadeu Filippelli (PMDB), localizada no conjunto 15 da QI 17 do Lago Sul.

O ex-deputado federal disse ao Metrópoles à época que estava em uma missa na Igreja São Pedro de Alcântara, na QI 13 do Lago Sul, quando vizinhos acionaram a polícia após verem uma movimentação suspeita no terreno. “Por volta das 18h15, o doutor Lóssio (João Carlos Couto Lóssio Filho, subsecretário do Sistema Penitenciário) me telefonou e pediu que eu voltasse para casa. Quando entrei na residência, percebi que a casa estava intacta, mas bicicletas e outros objetos no jardim tinham sido mexidos. Há, portanto, fortes indícios de que os bandidos tenham passado por ali para fugir”, relatou Filippelli ao Metrópoles.

Todos os fugitivos foram recapturados e 2 morreram

A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Distrito Federal (Seape) informou que todos os detentos foram recapturados e dois deles morreram.

Seis presos que escaparam com o trio foram recapturados um dia após a fuga, no Lago Sul (DF). Sete dias após o fato, um deles, Levino Pereira de Brito, de 35 anos, morreu após trocar tiros com a polícia, em Brazlândia (DF). Marcos Antônio Moreira dos Santos seguiu foragido, mas morreu em 10 de outubro de 2016. Ele cumpria pena total de 93 anos em regime fechado por 10 condenações por roubo e receptação. A causa da morte não foi revelada pela Seape.

A poucos dias da fuga completar 10 anos, o último foragido Michael da Mata Silva, de 35 anos, foi encontrado. Ele foi localizado na última terça-feira (17/2), no Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, ao tentar realizar uma poda irregular de uma árvore com uma motosserra sem registro.

Reprodução/GDF

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Outras fugas e tentativas na mesma época

Em outubro de 2015, cinquenta presos da mesma unidade foram isolados por suspeita de participarem da escavação de um túnel de quatro metros de extensão. A rota de fuga começava no pátio do CDP.

No dia 2 de fevereiro daquele mesmo ano houve uma fuga, onde cinco internos escaparam do Centro de Detenção Provisória (CDP), destinado a homens em prisão temporária ou que aguardam transferência.

Menos de uma semana após a grande fuga, em 26 de fevereiro, o CDP registrou uma nova, seguida de uma tentativa de rebelião. Na ocasião, os internos aproveitaram o momento para fazer uma ação denominada como “cavalo doido”, quando saem correndo em várias direções ao mesmo tempo para dificultar o controle dos agentes penitenciários, mas acabaram impedidos.

No ano seguinte, em setembro de 2016, 40 detentos também tentaram fugir por buracos no teto, mas foram contidos pelos agentes.

A última fuga divulgada foi em janeiro de 2025, quando um dos maiores ladrões de banco do Brasil, Argemiro Antônio da Silva, 62 anos, condenado a 125 anos de prisão, fugiu ao serrar grades da ala de idosos da Papuda. Cerca de um mês depois, o homem foi morto pela Polícia Militar de Goiás durante confronto em Águas Lindas (GO).

Atualmente, há mais de 16 mil pessoas cumprindo pena nos sete presídios do complexo da Papuda, para 10.673 vagas.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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